Desconstrução, hegemonia e democracia: o pós-marxismo de ernesto laclau

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 52 (12968 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 13 de fevereiro de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
DESCONSTRUÇÃO, HEGEMONIA E DEMOCRACIA:
O PÓS-MARXISMO DE ERNESTO LACLAU




Joanildo A. Burity

Departamento de Ciência Política,
Fundação Joaquim Nabuco
Mestrado em Ciência Política,
Universidade Federal de Pernambuco

INTRODUÇÃO: SALVAR A TRADIÇÃO?
Exumações prematuras à parte, o destino de uma tradição raramente está posto nas mãos dos que se encontram fora dela. Pelo menos nãoem se tratando da mera enumeração de suas inconsistências e evidências de fracasso. Porque uma tradição não se sepulta nem se abandona simplesmente. Até onde ela foi capaz de se constituir como objeto de adesão de um grupo de pessoas, seus impasses e paradoxos remetem sempre para possibilidades abertas e (ainda) irrealizadas, ou mesmo irrealizáveis. Obviamente, não está dado de antemão qual seráa direção tomada por tais reinvestimentos, tampouco se serão bem sucedidos. Refundações, revisões, recomposições e reconstruções são algumas dessas propostas de continuar ou resgatar um legado. A partir dos anos 60, uma outra forma de habitar uma tradição se colocou no horizonte intelectual e político de nosso tempo: trata-se da proposta de Jacques Derrida, inspirada em Nietzsche e Heidegger, dedesconstruir o edifício que ora se apresenta como monumento dos diversos elementos constitutivos da tradição, mostrando a contingência e historicidade última de sua configuração. Ao invés de se apresentar como um "para além de", uma ruptura ou uma Aufhebung hegeliana, inaugurando algo inteiramente novo e livre de paradoxos e imperfeições, a atitude desconstrutiva joga com as brechas e incompletudesdo que é, do que se apresenta como clausura, como fait accompli, e ora reativa as questões originais, ora se abre resolutamente ao chamado do outro, ainda que sob a forma do que sempre já apontou, na própria tradição, para outras possibilidades de ser.
No caso do marxismo, as várias tentativas que se fizeram de responder ao hiato crescente entre sua lógica estrutural(ista) e as contingênciasintroduzidas pelas transformações do capitalismo desde fins do século passado, foram atingidas por um desconcertante abalo no fim dos anos 80. A despeito de todo o esforço de correntes políticas e intelectuais para "renovar" o marxismo ou desatrelá-lo da ortodoxia de matriz terceiro-internacionalista, nada se comparou, diante dos eventos de fins dos anos 80 e início dos 90, à sismografia da "queda domuro", ao retalhamento da "cortina". Ante a fissura que se abriu sob o chão, até mesmo os mais ousados dos revisionistas foram apresentados como empedernidos conservadores( - Não que haja justiça neste esquecimento das lutas internas à tradição marxista para enfrentar o desafio que os deslocamentos característicos do seu objeto de análise e crítica - o capitalismo - impunham à própria cidadela dateoria. Num trabalho recente, Jacques Derrida (1994) analisou brilhantemente o descompasso entre esta conjuração do espectro de Marx pela onda neo-liberal e conservadora de todos os matizes, ou pelas reduções academicistas ou teoricistas da "obra de Marx", e a injustiça do presente (do mesmo presente que se apresenta na nova conjuração do fim de século como anúncio do futuro glorioso do planetasob a batuta do "mercado" e da "democracia liberal" fukuyamianos). Mas impõe-se reconhecer que uma vez disputando a verdade do real, do objetivo e do evidente no mesmo terreno dos seus adversários, o marxismo - mesmo o renovado - não teve como não se "render às evidências" de sua dissolução ou da inutilidade de seus esforços para se manter como a referência do campo radical.). Ou se recolheram aosilêncio seja dos que esperam a vindicação das forças implacáveis da História seja dos que quem sabe apenas calam ante o embaraço da falta de rumos. Nesse sentido, nenhum discurso crítico, cético ou mordaz, foi mais poderoso que o estrondoso desmonte do que se esperava em inquestionável transição para o próximo, quiçá final, ato do drama histórico.
Mas a matéria da tradição não se reparte nos...
tracking img