De espinosa a kant

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DO SABER DA EXPERIÊNCIA À EXPERIÊNCIA DO SABER

por Fernando Martinho Guimarães
f_guimaraes@sapo.pt
Numa crónica publicada no Diário de Notícias, na edição de 7 de Janeiro de
2007, «Dois tipos de experiência», Anselmo Borges, padre e professor de
Filosofia, faz a aclaração entre dois tipos de experiência. Pegando na distinção
que na língua inglesa se faz entre «experiment» e «experience»,e na língua
alemã entre «experiment» e «erfahrung», o cronista delimita o que na
experiência é da ordem da experimentação e o que é da ordem dos «valores e
das significações humanas». Se a experimentação – «experiment» –, designa o
que é próprio das sociedades tecno-científicas, os termos «experience» e
«erfahrung» carregam um significado que habitualmente associamos ao que é
verdadeiramentehumano: a vivência subjectiva e intersubjectiva. A este
propósito, Anselmo Borges encontra, na análise etimológica da palavra
portuguesa «experiência», sugestivas ressonâncias de sentido. Assim, na origem
latina da palavra, está a preposição «ex» e o verbo «periri». As palavras
«perito» e «experto» derivam também do vocábulo latino. Mas a «periri» ligase «periculum», isto é, perigo. No pôr àprova, que cabe dentro do significado
de experiência, achamos o atributo de quem é experimentado – na vida ou
numa especialidade. Experienciar é, pois, um lançar-se para a frente, um ensaio
cujo resultado é incerto. A incerteza que atravessa toda e qualquer experiência
está bem presente no lexema «per», que se encontra nas palavras
«experiência», «perito», «perigo». E que outra experiênciafaz perigar mais as
convicções e crenças que julgamos inabaláveis, que a experiência filosófica? Na
reflexão, a razão experimenta-se a si própria, põe-se à prova. É ainda Anselmo
Borges que, no citado artigo, se abalança, ainda por via da etimologia, a extrair o
que na aventura e errância da palavra «experiência» é oportunidade de sentido.
A palavra «oportunidade» é aqui usada na plenitude doseu sentido. Diz o
cronista que o lexema «per» indica tensão em direcção a um fim, e que
reencontramos essa ideia no grego «péra», com o sentido de mais além, do
outro lado. É daí que advém «portus» (porto e porta), com o sentido de saída,
de passagem e de entrada. Ora, a «portus» liga-se «opportunus», isto é, o
caminho que leva ao porto. A experiência filosófica devém assim a
oportunidade, ocaminho que leva à sabedoria.
Quer como organização significativa dos estímulos que recebemos do exterior,
quer como organização dos dados pertencentes ao mundo interno da
consciência, a experiência e a sua significância passam pela reflexão pessoal e
crítica que delas fazemos. Deste modo se leva a bom porto o que dessa reflexão
resulta: os diferentes saberes sobre o mundo.
Partindo daconcepção de aprendizagem significativa como um processo pelo
qual um saber é criado, graças à transformação pela experiência, o vivido é
reconfigurado pela reflexão que acerca dele e a partir dele se faz. De certa
maneira, encontramos aqui uma similitude com a relação que se estabelece
entre a crença e o conhecimento. Só quando acompanhada de justificações
adequadas aquela devém conhecimento. Domesmo modo, só quando
acompanhada por processos reflexivos, a experiência é conceptualizada. A
apreensão e compreensão da experiência fazem-se assim pelos conceitos que

resultam da interiorização cognitiva que dela fazemos. É neste sentido que se
diz que a experiência é portadora de sentido, na medida em que é condição da
possibilidade do desenvolvimento e da aprendizagem. Com efeito,quando
devidamente organizada, ela é geradora de novas experiências e de novas
configurações do saber.
À maneira das práticas laboratoriais das disciplinas científicas, ou dos treinos
das actividades desportivas, a Filosofia e o seu ensino passam, necessariamente,
pelo adestramento de procedimentos que lhes são específicos. A noção de
laboratório conceptual, proposta por Ignacio Izuzquiza,...
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