Da necessidade de uma pluralidade de interpretações acerca do processo de ensino e aprendizagem em ciências: re-visitando os debates sobre construtivismo

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  • Publicado : 3 de dezembro de 2012
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DA NECESSIDADE DE UMA PLURALIDADE DE INTERPRETAÇÕES ACERCA DO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM CIÊNCIAS: Re-Visitando os Debates sobre Construtivismo


Fernando Bastos () ()
Roberto Nardi (1) (2)
Renato Eugênio da Silva Diniz (1) ()
Ana Maria de Andrade Caldeira (1) (2)



Introdução



As pesquisas sobre concepções alternativas e mudança conceitual nas décadas de 1970 e 1980Pesquisas realizadas na década de 1970 mostraram que (a) as crianças possuem concepções "sobre uma variedade de tópicos em ciência, desde uma idade precoce e antes da aprendizagem formal da ciência"; (b) as concepções "das crianças são freqüentemente diferentes das concepções dos cientistas"; e (c) as concepções "das crianças podem não ser influenciadas pelo ensino de ciências, ou serinfluenciadas de maneira imprevista" (Osborne & Wittrock, 1985, p.59).
Além disso, dados obtidos em diferentes países e por meio de diferentes "metodologias de investigação" foram similares, o que conduziu à hipótese de que a existência de determinados tipos de idéias entre as crianças é um fenômeno amplamente disseminado (Osborne & Wittrock, 1985, p.60).
Tais resultados evidenciaram que oensino escolar estava falhando em "desenvolver nas crianças conceitos que fossem ao mesmo tempo aceitáveis e úteis para elas e solidamente fundamentados [...] [numa] cultura científica" (cf. Osborne & Wittrock, 1985, p.60).
Além disso, duas importantes suposições tornaram-se possíveis: (d) os alunos, a partir de suas experiências com objetos, eventos, pessoas, informações da mídia etc.,constróem por si mesmos uma variedade de idéias e explicações acerca das coisas da natureza; (e) as idéias e explicações construídas pelos alunos podem ser consideravelmente resistentes à mudança e funcionar como importantes obstáculos à aprendizagem escolar.
Os dados de pesquisa produzidos nesse período e em etapas subseqüentes permitiram um amplo mapeamento das idéias dos alunos em relação ainúmeros temas. Idéias dos alunos que não coincidiam com o saber científico foram denominadas concepções, conceitos ou idéias alternativas, ingênuas, intuitivas, espontâneas ou de senso comum.
Na década de 1980, a preocupação em relação ao fenômeno das concepções alternativas deu origem a debates e pesquisas que visavam estabelecer de que forma essas concepções poderiam ser eliminadas outransformadas, dando lugar a concepções que fossem coerentes com os conhecimentos científicos atuais. Surgiram então diversos trabalhos que tinham como finalidade discutir os processos mentais que conduzem à mudança conceitual e identificar as condições objetivas (contextos de ensino e aprendizagem) que estimulam o indivíduo a voluntariamente substituir suas concepções alternativas por concepçõesmais adequadas do ponto de vista científico (cf., por exemplo, Posner et. al., 1982; Hewson & Thorley, 1989; Pintrich et al., 1993; Vosniadou, 1994; Venville & Treagust, 1998) ().
Esses debates foram influenciados por conhecimentos provenientes de diversas fontes, entre elas a filosofia da ciência (cf. Bastos, 1998, p.10-1). Assim, nesse período, uma das idéias que se fortaleceu e ganhouadeptos no interior da comunidade de pesquisadores foi aquela que havia sido defendida por Posner et al. (1982), segundo a qual a mudança conceitual nos indivíduos se assemelharia à mudança de paradigma na ciência, proposta por Kuhn (1962).
Entender a mudança conceitual como mudança de paradigma teve uma série de implicações importantes. O estudante, para transitar de um conjunto de noçõespara outro (por exemplo, para movimentar-se de uma física espontânea para uma física mais próxima da física newtoniana), precisaria operar em si mesmo uma autêntica 'revolução científica'. Além disso, ficava claro que a mudança conceitual poderia requerer que as concepções dos alunos fossem expostas a contra-exemplos, pois, na análise realizada por Kuhn, as anomalias (observações que contradiziam o...
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