Cultura organizacional

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Cultura Organizacional

Jorge Correia Jesuino
Professor Jubilado do ISCTE, Lisboa

Nível Organizacional
Numa obra recente – Un nouveau paradigme, Alain Touraine (2005) sustenta que após o paradigma político, predominante na idade clássica, e o paradigma económico e social que dominou na modernidade, entramos agora com o acelerar da globalização num novo paradigma, o paradigma cultural. Oque significaria por um lado, uma acentuação do individualismo, e por outro lado, uma maior consciencialização face aos problemas globais que se desenham para o futuro da humanidade. A ideia de que entramos numa nova era, numa nova cultura, parece estar igualmente subjacente ao pós-modernismo, enquanto novo paradigma que afecta sobretudo as ciências sociais introduzindo novas temáticas e novasmetodologias.
As organizações constituem como que laboratórios naturais para o estudo dos problemas sociais e humanos. Nelas cruzam-se comportamentos situados em contextos de complexidade variável cuja trama reflecte e refracta a própria complexidade societal próxima como distante. As organizações são, assim, autênticos microcosmos das sociedades onde se inserem permitindo uma análise a uma escalamais reduzida dos problemas da envolvente que, em vagas sucessivas, nelas acabam por produzir efeitos.
Não será assim de estranhar que o paradigma cultural esteja igualmente presente tanto nas práticas como nas teorias das organizações. Arriscaria mesmo a hipótese de o conceito de cultura organizacional ter tido importância porventura decisiva para a generalização do paradigma cultural, contribuindopara o transformar numa noção do senso comum – uma representação social, e hoje largamente incorporada na linguagem corrente. De tal modo que quando falamos da cultura seja dum grupo, duma empresa, duma associação, ninguém parece surpreendido com a natureza do conceito e apenas diferindo, se tal for o caso, do conteúdo para que remete.

Todavia, e para nos limitarmos ao nível das organizações,o conceito de cultura enquanto paradigma epistemológico, é relativamente recente. Elliot Jacques foi porventura o primeiro autor a propor e utilizar o conceito num estudo que realizou numa fábrica inglesa e publicado no início da década de cinquenta (Jacques, 1951/1952). A cultura organizacional é aí definida como “a forma habitual e tradicional de fazer as coisas (doing things), que é partilhadaem maior ou menor grau por todos os membros, e que os novos membros devem aprender e aceitar, ainda que parcialmente, a fim de serem aceites nos serviços da firma (firm)” (Jacques, 1952, p.251).
O estudo de Jacques não foi porém acolhido com o entusiasmo de que viria a ser objecto a obra de Peters e Waterman – In search of excellence, publicada em 1982, e que vendeu 6 milhões de exemplares. Umautêntico Harry Potter no universo bem mais rarefeito da gestão das organizações e empresas.
Porque é sobretudo a partir da publicação desta obra que o conceito de cultura organizacional se impôs e se generalizou. Para estes autores a cultura organizacional consiste num “conjunto coerente e dominante de valores partilhados (shared) transmitidos (conveyed) por meios simbólicos como estórias(stories), mitos, lendas, slogans, relatos, subjectivos (anedoctes) e contos de fadas (fairy tales)” (Peters e Waterman, 1982, p.103). A razão do sucesso da obra tem sido atribuída ao enfoque que os autores colocavam no factor cultural – a famosa gestão pela cultura, que estaria na base do êxito japonês como igualmente explicaria a excelência do desempenho de algumas empresas norte-americanas.Curiosamente, todas elas vieram a sair do topo da lista das 500 melhores empresas que a Fortune publica anualmente. O livro de Peters e Waterman está hoje rigorosamente datado. Nos tempos que vivemos, a taxa de renovação é muito rápida e certamente muito cruel para a literatura de aeroporto. De qualquer forma, é certamente a partir de então que o conceito de cultura é adoptado não apenas pelos académicos...
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