Crônicas do cotidiano

790 palavras 4 páginas
A flor
Os ateístas, adeptos da fé da não existência de um ente criador e cultualistas da matéria, reagem à vida de duas maneiras. Na primeira negam o sentido da vida; na segunda, entregam-se ao amor extremado pelo ato de viver. Nos dois casos, a última fase de vida, a velhice, para eles, se torna triste. Não raro, morrem tristes, vítimas da angústia do vazio.
Ao que tudo indica, essa morte vazia e triste é própria do intelectual. Naturalmente, há velhos felizes. Contribuem para a felicidade deles certos fatores, como dinheiro para cuidar da saúde, boas relações sociais e, principalmente, no que cabe negar a premissa bobbiana sob influência de Hannah Arendt, um perfeito entrosamento com o presente. Nada de passado. Nem de lembranças. Tampouco de saudade.
Imaginemos o olhar arregalado de Dercy Gonçalves, a boca aberta, pronta para a resposta afiada e definitiva, ao ouvir Bobbio declamar: “A dimensão na qual o velho vive é o passado”. “Ora!”, exclama Dercy Gonçalves, que, certamente, não teria lido Bobbio. “E quem disse que o mundo do velho é triste? Se você mesmo diz que a velhice é a continuação da juventude e maturidade, taí: o que você conta de sua infância e juventude nesse tal de livro, ‘O tempo da memória’, explica a sua velhice. Não me admira tanto fel.”
E, como tantas vezes repetiu em vida, a comediante finalizaria: “Saber viver é não ter saudade de nada, nem de ninguém; não ter ódio, não estar apaixonado. Saber viver é ser livre”. De qualquer maneira, não adianta generalizar. Sabemos que o melhor da dimensão humana é a diversidade. Ninguém se repete.
Mas, o que isso tem de mais? A que vem a retórica sobre a velhice? Referimo-nos à relação da velhice e juventude com a literatura. Ambas têm rendido páginas memoráveis desde tempos remotos. Bobbio e Dercy Gonçalves serviram a propósitos diferentes, mas de igual valor, no início deste texto. Uma e outro falam a verdade, do ponto de vista de suas possibilidades.
Diremos um pouco da flor:
Goza, goza da

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