Critica na rede

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19 de Dezembro de 2004 ⋅ Livros

Liberais contra a TV?

Orlando Tambosi
Homo Videns: Televisão e Pós-pensamento, de Giovanni Sartori
Lisboa: Terramar, 2000, 196 pp.
Nos anos 1970/80, era da esquerda — em especial a marxista — que procediam as críticas mais ferozes aos media, particularmente à televisão. Na esteira da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer e Marcuse), alguns estudiosos eideólogos denunciavam a "indústria cultural" como serviçal do capitalismo, não menos que a ciência e a técnica. Outros, seguindo Althusser, viam a televisão como mero "aparato ideológico do Estado", que, tal como a escola, tinha por objetivo "inculcar" a ideologia dominante. E havia também os que, apegados ao conceito de "indústria da consciência", elaborado por Hans Magnus Enzensberger,vislumbravam um caminho de mão dupla: os "meios de comunicação de massa" podiam, sim, ser utilizados em sentido "emancipatório", isto é, numa perspectiva socialista — a bem da verdade, algo que os seguidores de Gramsci, por sua vez aferrados ao conceito de "hegemonia", já tinham percebido bem antes do ensaísta e poeta alemão.
A partir dos anos 90, porém, ocorre um deslocamento ideológico da crítica.Curiosamente, agora são os liberais a tomar a televisão como alvo de tiro. Tudo começou com o filósofo Karl Popper, um dos maiores epistemólogos do século XX, abominado pelos marxistas por seu suposto "positivismo" e malvisto pelos conservadores por sua impaciência com as ideologias, as religiões e a metafísica. Defendendo a criação de "uma lei para a televisão" (cf. Televisão: Um Perigo para aDemocracia,Gradiva, 1995), o teórico da "sociedade aberta" chegou a reivindicar uma maior presença dos organismos de Estado em relação à TV (logo ele, politicamente um liberal!).
Apesar de lhe terem atribuído a exigência de censura, o que Popper realmente queria era chamar a atenção para um ponto essencial: na democracia não há poder político sem algum controle. E a TV, dizia o filósofo, exerce umtremendo poder político, "potencialmente o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz de Deus". Para Popper, esse meio "adquiriu um poder demasiado vasto" — e nenhuma democracia pode sobreviver a tal "onipotência".
Não é insensato afirmar que todos os poderes políticos, numa democracia, devem ter alguma forma de controle público. O que se discute é quem exercerá esse controle para quese evitem excessos. No caso da TV, o Estado, embora sendo o poder concessor, certamente não é a melhor indicação, mesmo sob governos democráticos (nas ditaduras, pior ainda). A solução talvez seja a auto-regulamentação, isto é, atribuir essa responsabilidade às próprias empresas de comunicação e aos profissionais que nela trabalham, ou adotar a co-regulamentação, envolvendo, além dos empresáriosdo setor, representantes de organizações não governamentais e outras entidades sociais etc. De qualquer modo, o importante é ter em conta que os excessos podem ser punidos a posteriori — medida, convenhamos, mais civilizada que censurar.

Morte do pensamento?

A crítica mais contundente à televisão veio da Itália, no final dos anos 90, quando um respeitado politólogo e sociólogo — também ele umliberal — lançou Homo Videns: Televisão e Pós-pensamento(livro traduzido no Brasil pela Edusc, de Bauru, em 2001). Giovanni Sartori, o autor, lecionou ciência política e sociologia em diversas universidades, inclusive norte-americanas (Stanford, Yale, Harvard e Columbia), e atualmente é um dos dirigentes da Società Libera (www.societalibera.org), organização dedicada ao estudo e à difusão dosideais liberais, além de colaborador do jornal Corriere della Sera, o principal jornal do país.
O ataque de Sartori à TV lembra algumas diatribes frankfurtianas contra a "indústria cultural", embora não haja qualquer referência a Adorno ou Horkheimer na sua bibliografia (os autores elencados, aliás, são quase todos ingleses e norte-americanos). No geral, portanto, as idéias de Sartori não são...
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