Crise contemporânea e as transformações na produção capitalista

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Crise contemporânea e as transformações na produção capitalista 
     
                                                   

Ana Elizabete Mota  Professora Convidada da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE   

 

Crise contemporânea e as transformações na produção capitalista 
    Introdução     Este  texto  trata  da  crise  contemporânea e  das  transformações  na  produção  capitalista,  entendidos  como  processos  que  determinam  as  mudanças  societárias  em  curso. Objetiva‐se discorrer sobre o alcance e o significado das transformações sofridas  na  esfera  da  produção,  desde  os  finais  dos  anos  70  do  século  XX,  destacando  seus impactos no processo de acumulação capitalista, na gestão do trabalho e nos modos de  ser  e  viver  da  classe  trabalhadora.  Seu  conteúdo  está  estruturado  em  três  partes:  inicialmente,  ressalta‐se  a  dimensão  histórica  das  crises,  qualificando‐as  como  constitutivas  do  modo  de  produção  capitalista  e  da  sua  dinâmica  restauradora;  em  seguida,  destacam‐se  as  particularidades  da  crise  que  se  iniciou  no  final  dos  anos  70, assim como os mecanismos utilizados pelo capital para o seu enfrentamento, pautados  na reestruturação produtiva, na mundialização financeira, nos mecanismos de gestão do  trabalho e nas estratégias de construção da hegemonia do grande capital; por fim, serão  indicadas  as  principais  implicações  dessas  transformações  no  mundo  do  trabalho  e  na  organização  política  dos  trabalhadores,  como  parte  ofensiva  do capital  para  construir  uma cultura e uma sociabilidade compatíveis com os seus interesses atuais.     1 As crises na dinâmica da acumulação capitalista    Para  compreender  as  mudanças  na  dinâmica  do  capitalismo,  é  necessário  reconhecer  o  significado  histórico  das  crises  no  seu  desenvolvimento.    Sejam  elas  qualificadas  como  crises  econômicas 1 ,  como  o  fez  Marx no Livro  III  de  O  Capital  e  em  cuja tradição se perfilam autores como Rubin 2 , Altvater 3  e Mandel 4 , sejam elas também 
  Na  investigação  de  Marx,  a  explicação  das  crises  está  relacionada  com  a  lei  tendencial  da  queda  das  taxas  de  lucro,  expressão concreta das contradições do modo capitalista de produção e cuja equação pode ser sinteticamente resumida nos seguintes termos: a  produção da mais‐valia (quantidade de trabalho excedente materializado em mercadorias e extorquido no processo de trabalho) é  apenas  o  primeiro  ato  do  processo  produtivo.  O  segundo  ato  é  a  venda  dessas  mercadorias  que  contém  mais‐valia.  Como  não  são  idênticas  as  condições  de  produção  da  mais‐valia  com  as  da  sua  realização,  a  possibilidade  de  descompassos  entre  esses dois  momentos  cria  as  bases  objetivas  para  o  surgimento  de  crises.  Para  uma  primeira  aproximação  ao  tema,  sugerimos  a  leitura  de  Cultura  da  Crise  e  Seguridade  Social  (MOTA,  1995),  especialmente  a  Introdução  e  o  Capítulo  I  e  de  Economia  Política:  uma  introdução crítica (NETTO; BRAZ, 2006), Capítulo 7.    2 Rubin (1980, p. 31) afirma que as crises ocorrem porque “o processo de produção material, por um lado, e o sistema de relações de  produção  entre  as  unidades  econômicas  [...],  por  outro,  não  estão ajustados  um  ao  outro  de  antemão  (grifos  nossos). Eles  devem 
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concebidas  como  crises  orgânicas,  nas  quais  adquire  destaque  a  dimensão    política,  seguindo a análise gramsciana 5,  fato é que elas são inelimináveis e indicam o quanto é  instável  o desenvolvimento capitalista.     Segundo  Rubin,  as  crises  são  “hiatos  dentro  do  processo  de  reprodução  social”  (1980,  p.  31).  Através  delas  o  capital  se  recicla,  reorganizando  suas  estratégias  de  produção e reprodução social. Pode‐se dizer que as crises econômicas são inerentes ao ...
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