Crescendo como um xikrin: uma análise da infância e do desenvolvimento infantil entre os kayapó-xikrin do bacajá1 clarice cohn mestre em antropologia social – usp

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 36 (8848 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 23 de setembro de 2011
Ler documento completo
Amostra do texto
Crescendo como um Xikrin: uma análise da infância e do desenvolvimento infantil entre os Kayapó-Xikrin do Bacajá1
Clarice Cohn Mestre em Antropologia Social – USP

RESUMO: Este artigo busca entender o processo de desenvolvimento infantil entre os Xikrin através de sua própria concepção de criança e do crescimento, além de uma análise que busca focar o modo como as crianças intervêm ativamentenesse processo. Assim, o artigo filia-se a uma nova ênfase da antropologia contemporânea, aquela que recupera os estudos sobre a infância em outras sociedades a partir de concepções de Pessoa e da participação ativa da criança em sua própria inserção na vida social, recusando a visão da socialização como meio de incutir em “imaturos”, que imitam e miniaturizam a vida adulta, valores ecomportamentos socialmente aceitos. PALAVRAS-CHAVE: antropologia da infância, socialização, aprendizado, transmissão de conhecimentos.

Introdução
Nesse artigo, propõe-se revisitar os Xikrin, subgrupo Kayapó, de língua Jê, habitante do sudoeste do Pará, para discutir o modo como eles concebem a infância e o desenvolvimento infantil, assim como o aprendizado. Nessa nova abordagem, recorremos às análises queefetuam uma revisão do modo como a antropologia tratava da infância nas sociedades que estudava. A etnografia sobre as concepções xikrin e da condição de participação das

CLARICE COHN. CRESCENDO COMO UM XIKRIN

crianças é apresentada de modo a demonstrar como, também para eles, as crianças devem ser vistas e entendidas em sua especificidade, e não como adultos em miniatura. As produçõesrecentes na antropologia que se voltam ao aprendizado e à infância têm ressaltado a importância de se atentar para a participação ativa das crianças na vida social e na construção de sentidos a partir de sua vivência e interação. Christina Toren (1990, 1999) propõe que a antropologia deva se voltar ao estudo de uma “microhistória”, em que o entendimento sobre o mundo social é construído por cadaindivíduo ao longo da vida a partir da intersubjetividade; a ênfase na construção desse entendimento pressupõe que ambas as partes, e não apenas o “socializador”, sejam tidos como agentes, em uma recusa da passividade da recepção dos valores e atributos sociais, substituída aqui pela construção de significados e sentido na interação. Reconhecendo a criança como um agente que constrói suas relações eatribui sentidos, a antropologia revê a análise do processo de socialização, deixando de pensar a criança como tendo incutido valores e comportamentos e se constituindo em pessoa plena rumo a um produto social já conhecido de antemão (Schildkrout, 1978), ou como mera reprodutora de um mundo adulto, mas sim como um ator social ativo e produtor de cultura (Caputo, 1995; Pelissier, 1991).Possibilita-se assim que o estudo da infância nessas sociedades enfoque um mundo relativamente autônomo, que tem validade por si, nas experiências e na vivência das crianças, e em suas formulações sobre o mundo em que vive, vendo-a como um agente, e não como um sujeito incompleto, ou um adulto em miniatura que treina a vida adulta, ou, como sugere Schaden (1945: 271), aprendendo por imitação, definida como um“‘instinto social’ que faz com que a criança, antes de chegar à puberdade, ‘aprenda brincando’ todas essas habilidades”, tornando-se gradativamente um “ser social pleno”2. Os estudos sobre a noção de pessoa vêm possibilitar que se apreenda o modo como cada sociedade concebe a infância e também o “ser pleno” em que ela se desenvolve, permitindo que se veja do interior de cada - 196 -

REVISTADE ANTROPOLOGIA, SÃO PAULO, USP, 2000, V. 43 nº 2.

sociedade analisada o modo como este é definido, e, portanto, não o estabelecendo como uma construção do pesquisador. Eles permitem entender qual a definição social de humanidade, quais os processos necessários para que se adquira o atributo de ser humano, como a sociedade intervém nesses processos, que não são tidos como finitos, mas...
tracking img