Corpo, memória e emoções: reflexões sobre o sentimento de pertença em um terreiro de candomblé

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X Congreso Argentino de Antropología Social
Buenos Aires, 29 de Noviembre al 02 de Diciembre del 2011

Grupo de Trabajo:

GT 49 – Antropología del cuerpo e la subjetividad

Título de la Trabajo:

Corpo, memória e emoções: reflexões sobre o sentimento de pertença em um terreiro de Candomblé

Luiz Gustavo Pereira de Souza Correia. Universidade Federal de Sergipe

X Congreso Argentinode Antropología Social – Facultad de Filosofía y Letras – UBA – Buenos Aires, Argentina

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A presente comunicação tem por base algumas questões norteadoras de pesquisas anteriores retomadas no meu retorno a João Pessoa, Paraíba, cidade em que se localiza o terreiro etnografado. Aqui apresento notas etnográficas, passagens, narrativas e discussões revistas tendo o foco direcionado ao corpocomo matriz da identidade, elemento central para a compreensão do sentimento de pertença, o corpo como apreensão e revelação dos processos de configuração das memórias pessoais e coletiva, os vínculos e projetos dos religiosos no jogo social. O estopim que desencadeou as análises da comunicação foi a frase da mãe-de-santo do terreiro, Maria Helena: “ser do santo é ser escravo do santo, é fazer do seucorpo matéria do santo”. Assim, são apresentadas narrativas e reflexões preliminares que versam sobre o corpo em sua sensorialidade e expressividade - as dores, as intervenções sofridas, os gestos e as danças - relacionando-o às aprendizagens e saberes, experiências e eventos constituintes dos percursos “no santo”. As histórias da pele, os contatos com o sagrado, as sensibilidades despertas pela“feitura no santo”, marcas e marcos das trajetórias individuais decodificadas pelo sistema simbólico próprio, remetem às memórias e emoções que engajam os adeptos ao grupo religioso.

ACERCAMENTOS De início exponho categorias analíticas que possibilitam explorar os significados atribuídos às experiências dos religiosos nas narrativas que retratam o corpo em seu potencial de inscrição e expressãoda identidade. A sensibilidade individual dos sujeitos, tal como propõe David Le Breton, como a economia emocional corporificada, tornou-se a categoria analítica fundamental, por possibilitar compreender as práticas e noções de corpo próprias aos indivíduos e grupos sociais em um determinado recorte tempo-espaço e as relações estabelecidas nas configurações e dinâmicas da sociedade. Tal conceitobaseia-se inicialmente na obra de Maurice Merleau-Ponty, para quem o corpo é a condição intersubjetiva de vivência dos indivíduos, ressaltando assim a experiência subjetiva do corpo em seu enraizamento no mundo social. A partir de tais indicações e da releitura de outras
X Congreso Argentino de Antropología Social – Facultad de Filosofía y Letras – UBA – Buenos Aires, Argentina

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referênciasteóricas sobre o corpo, sigo as proposições que sugerem ser no e pelo corpo, como dimensão do nosso próprio ser, que se efetivam e se inscrevem as experiências e os projetos, que se pode pensar em modalidade particular de ser no mundo. Somos individualidades pelo corpo que somos no tempo e no espaço. Nos realizamos como sujeitos na ação do corpo no tempo e no espaço. Tais proposições seguem deperto a relação que Merleau-Ponty declara existir entre o corpo e o espaço exterior, um sistema prático, percebido na ação, já que é no movimento que a espacialidade do corpo se realiza. Como afirma o autor, “o movimento não se contenta em submeter-se ao espaço e ao tempo, ele os assume ativamente, retoma-os em sua significação original” (1999, p. 149). Tratando o “sujeito humano como consciênciaindecomponível”, Merleau-Ponty faz a ponte entre a idéia de experiência e a noção de espaço habitado e vivenciado pelo corpo no mundo através do movimento como ação prática. O movimento, segundo o autor, é apreendido pela compreensão que dele tem o corpo, quando este o incorporou ao seu mundo. Sobre o corpo, o tempo e o espaço, portanto, não se deve dizer que está no espaço ou mesmo que está no...
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