Cora coralina

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Cora Coralina

1889 – 2009

Cora ousou voar e voou tão alto quanto Fernão Capelo Gaivota

Para melhor entender a obra de um artista, seja na música, literatura, artes cênicas ou artes plásticas, é preciso conhecer ao menos um pouco de sua vida e da época em que viveu. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu numa época em que o comportamento feminino reivindicador oucontestador era tido como uma ameaça à ordem estabelecida pelos interesses masculinos, que impunham uma relação de poder, cabendo às mulheres o cumprimento de seus deveres: obedecer ao marido, ser-lhe fiel, cuidar dos filhos.

Foi um período ingrato para mulheres que tinham outras aspirações, época de opressão e desejos secretos.

As famílias acreditavam que a instrução para as filhas era desnecessária.O comportamento comedido, música e um pouco de francês seria o suficiente para a mulher de classe alta, para que pudessem distrair seus familiares ou convidados numa reunião ou festa; para a mulher de classe inferior a educação se restringia a atividades que fossem úteis ao ambiente doméstico, para que pudesse servir de governanta, cozinheira, arrumadeira, com salário parco.

Outras ciênciasnão eram necessárias para fazer um casamento. Seus irmãos deviam ir para escolas públicas e universidades, mas a casa era considerada o lugar mais apropriado às meninas. A inferioridade da mulher nesta época era um fato incontestável.

As mulheres deviam que se preparar para o casamento e para o exercício da maternidade. Melhor qualquer casamento do que casamento nenhum.

Permanecer solteira erauma fatalidade e aos trinta anos a mulher não casada era sentenciada a ser uma “velha solteirona”. No caso da morte dos pais, passavam a viver em casa de parentes, como hóspedes permanentes e não desejados, na maioria das vezes servindo-lhes com tarefas domésticos, em condições em que não raro eram desprezadas.

Por outro lado, mulheres de comportamento mais liberal, eram desconsideradassocialmente.

Em outros países esse comportamento não era diferente, como retrata o filme "A Época da Inocência", do diretor Martin Scorsese, baseado em obra da escritora Edith Wharton, nos mostra o cotidiano das mulheres norte-americanas no século XIX, com Wynona Ryder e Michelle Pfeiffer.

Mas havia mulheres que já refletiam sobre a questão dos direitos da mulher, a educação, a relação entre o sexoe o direito a escrever e publicar. Mulheres que se recusavam a viver apenas na beira do fogão ou, em alguns casos, a apenas estudar francês e piano. Mulheres que não desejavam se esconder por trás de pseudônimos masculinos.

O texto do escritor Viveiros de Castro, de 1895, retrata como eram tratadas as mulheres que ousassem abandonar o papel de musa em troca do de autora. "Aquelas que, rompendocom um meio tão hostil, atrevem-se a cultivar as letras devem logo se resignar aos sarcasmos mais pungentes e às chufas mais grosseiras. Contestam-lhes o talento e babam as mais vis calúnias sobre sua honra. Raramente recebem uma palavra de animação e, se alguém as saúda, é logo suspeito de ser seu amante".

“Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizero que somos”. Na afirmação de uma personagem do romance As meninas (1975), de Lygia Fagundes Teles, parece estar a raiz do fenômeno de transformação vivenciado pela mulher desde o século passado.

Para melhor entender a obra de Cora Coralina é fundamental conhecer, ao menos, um pouco de sua vida, do rótulo que lhe foi imposto ainda menina de “desajeitada, feia e moleirona”.

Ana foi rejeitadano ambiente familiar, de saúde frágil e aparência debilitada teve infância difícil e adolescência solitária.

“Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças”.
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