Convite e filosofia

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  • Publicado : 16 de fevereiro de 2013
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O livro Comunidades imaginadas é um convite à reflexão a respeito das diásporas contemporâneas que marcam os territórios e a forma como os grupos sociais se rearranjam culturalmente nestes novos espaços. Fala-se de um momento diferente daquele no qual a residência era percebida como a base local da vida coletiva e a viagem, apenas um suplemento. Remete-se a um tempo no qual, segundo Clifford (1)os deslocamentos – e a relação com os novos espaços – podem significar um aspecto complexo e abarcador das experiências humanas.
A proposta do texto é problematizar de que forma as práticas de deslocamento podem aparecer como constitutivas de significados culturais, ao invés de ser sua simples extensão e transferência do seu local de origem. Os efeitos culturais do expansionismo europeu, porexemplo, já não podem ser celebrados como uma simples extensão ou transferência da civilização, da cidade, da indústria, da ciência, ou do capital; a complexidade das formações culturais oriunda dos processos migratórios se relaciona com seus pares e seus espaços de forma criativa: inventam comunidades, cidades e a relação entre ambas. Para além da construção das nacionalidades e dos nacionalismos queas comunidades operam, Benedict Anderson nos oferece uma discussão consistente das questões culturais que motivam a criação de comunidades imaginadas.

De trajetória acadêmica realizada fora dos círculos tradicionais europeus que abordam os fenômenos sociais, Benedict Anderson nasceu em 1936, em Kunming, China, e cresceu na Califórnia. Estudou em Cambridge (onde leciona até hoje) e passou a sededicar aos estudos da política e da historia da Indonésia e do Sudeste Asiático. É também professor emérito da universidade de Cornell.

Publicado pela primeira vez em 1983, o livro chegou ao Brasil em 1989, com uma tiragem bastante limitada, e foi reeditado, dez anos depois, pela Companhia das Letras. A nova edição, além de contar com o acréscimo de dois capítulos, tem na apresentação aassinatura de Lilia Moritz Schwarcz, que enfatiza que “mais que inventadas, as nações são imaginadas, no sentido de que fazem sentido para a alma e constituem objetos de desejos e projeções” (p. 10).

É disto que trata o livro: do poder e da força de imaginação que as comunidades tem para se definirem e o fazem através de um fenômeno que embora não seja passível de definição, existe: o nacionalismo.Sua tese é a de que tanto a nacionalidade (ou condição nacional) quanto o nacionalismo são produtos culturais específicos. Para comprová-la o autor argumenta que a criação desses produtos, no final do século 18, foi uma destilação espontânea do “cruzamento” complexo de diferentes forças históricas, que, depois de criadas, se tornaram “modulares’’, capazes de serem transplantadas com diversos grausde autoconsciência para uma grande variedade de terrenos sociais, “para se incorporarem e serem incorporados a uma variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas” (p. 30).

Teoricamente, ao utilizar os estudos culturais como referência para sua tese, Anderson se opõe a estudos clássicos sobre o tema, como, por exemplo, a Ernest Gellner (2), que vinculou o nacionalismo aoindustrialismo; a Elie Kedourie (3) que relacionou o nacionalismo à Ilustração; e à Hobsbawm (4) que atribuiu o nacionalismo à questão econômica. A partir disso, o autor analisa a formação histórica das comunidades e sua transformação ao longo do tempo, e porque dispõem, nos dias de hoje, de uma legitimidade emocional profunda. Para tanto um dos conceitos operacionais fundamentais para esta discussãoé o de nação, que visto dentro de um espírito antropológico é “uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana” (p. 32).

Para Anderson, a possibilidade de pensar o nacionalismo tem sua origem nas raízes culturais de uma Europa do século 18, que naquele momento assistia ao declínio do pensamento religioso como forma de explicação...
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