Comportamento humano

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Esta história nascera de uma poesia. Um alaúde contara a um andarilho; este contara a um druida muito idoso; este contara inocentemente a um padre; este, com o fino indicador sobre os lábios agudos, contara a um pescador. O andarilho era rei amaldiçoado; o pescador tomou-lhe o reino, contando a história ao povo, tornando-a seu próprio épico, o qual se tornara mito, e pela insistência daspalavras, sob a voz dos anciões e sobre o medo das crianças, tornara-se lenda e profecia.


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Fora a Morte, de novo, e sim, de corvo, o anjo deste epitáfio, epílogo e prefácio, sempre torvo...


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A Morte conscientizara-se habilmente: apenas um lugar sem vida alguma lhe traria paz para compor certos silêncio e reflexão. Escolhera, portanto, um deserto tão antigoquanto o universo; de areias cinzentas, apenas, e sem sóis juvenis de inconveniente vaidade, apenas uma solene e serena luz alaranjada de velas tímidas pairando entre o éter imaterial de um céu superior e infinito, sem estrelas. Silêncio. Apenas um leve e lento vento de conforto. Nada mais...
Seria de se esperar, de um anjo solitário, a altiva e impetuosa construção de um castelo oufortaleza, ostensórios de tamanha fortuna de existência. A Morte, não obstante, servir-se-ia apenas de um casal de humildes cadeiras de balanço, de antigas vigas e vidas de madeiras já, havia muito, extintas, e, de mesma matéria bruta, uma pequena mesa de centro onde repousar literatura e, talvez, certo cálice de vinho. A Morte não ordenara ninguém a erguer muros ou portões, e ninguém o fez....

Recostada ao balanço lento daquela sua leve brisa, a Morte recordara-se, certa vez, dos equívocos de seu imortalíssimo gêmeo, o Sono, o qual - alegaram certos poetas - decidira a construção de portões para o fantástico e misterioso reino do Sonho, seu incógnito parente de tantos segredos e mistérios. Decidira, então, o Sono, repentinamente e pela inspiração das horas monótonas,alocar-se para descanso eterno - e a Morte, recordando, rira-se da ironia da expressão -, deixar de sonambular pelos mundos com a caravana onírica de surrealismos teatrais; decidira repousar as cortinas. Escolhera, apontando a dedos trêmulos de exaustão, onde impor seus símbolos arquitetônicos, o inóspito local: uma abismal garganta e vale de uma altiva montanha de eternas rochas agudas em montesaleatórios e muito alvos nevoeiros. E assim fora a vagarosa monumentação de dois portões, um de mármore, para os sonhos falsos, e um de chifre, para os presságios e profecias - o qual parecera, ao velho Sono, uma excelente ideia de contrapontos estéticos. Por fim, pela sonolenta estesia, pusera neste corredor, um olmo de galhos invernais, no qual se pousariam os fantasmas de sonhos perdidos. E assimnascera a insônia; os indivíduos haviam-se se perdido de quaisquer trilhas perante o Sono, pois ainda o aguardariam inertes pelas noites, incessamente, sem jamais achar um rumo que os levassem a quaisquer portões - pareceram-se tão iguais, afinal. O olmo enchera-se, como folhagem, de aves sem rumos ou caminhos que pousariam desconfortavelmente em seus ríspidos galhos retorcidos, já não tão livres, pois,pesados e outonais; fantasmas, nunca alocados, é verdade, rumam sem destinos aos galhos do olmo indiferente e sábio, cada vez mais e mais.
Fora apenas um devaneio tolo de pequenas memórias de uma infância não vivida entre sempiternos gêmeos, filhos da Noite; a Morte olhara melancólica a um tímido livreto aberto sobre a mesa, como se este arrogando-se a voar, tentando-o, em páginas aladas,debater-se a poeira dos clássicos. O autor, assombro espectro de reflexivo daguerreótipo tão romântico, lhe insistia em sutis, depressivos sorrisos de doppelgangers na diversão suicida de infantes poltergeists, a cinzenta sorte da obscura Morte em seus murmúrios de poeta: "Ora, infausto amigo, Morte, anjo tão tristonho, estranho... A vida é a infância da imortalidade"...


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