Compagnon, antoine – resenha

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  • Publicado : 20 de outubro de 2012
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COMPAGNON, Antoine – RESENHA

Como se deve abordar um texto literário? Deve-se, por exemplo, procurar informações sobre o autor ou o contexto histórico e cultural em que o texto foi escrito? O que é mais importante, o estilo ou o conteúdo? Haverá uma leitura objetiva, ou tudo depende da subjetividade do leitor? Para essas perguntas, entre outras, a teoria literária reivindicou oferecerrespostas inovadoras. Essa disciplina, que alcançou seu auge na França nos anos 1960, principalmente com Roland BARTHES (1915-1980), estava na vanguarda dos estudos literários no mundo e sua ambição era fundar uma ciência da literatura. Animada por um real espírito combativo, a teoria literária pretendia revolucionar os estudos acadêmicos e devolver a literatura ao centro das preocupações sociais. Eladenunciou continuamente um determinado número de idéias geralmente aceitas: já não era possível, por exemplo, acreditar que a intenção do autor determinava a significação de um texto, que a literatura fala do mundo ou que sua essência é o estilo... Era necessário acabar com esses “fatos falsos” aceitos com demasiada facilidade pelo sentido comum. Mais de vinte anos depois, tem-se de admitir que ateoria literária não conseguiu atingir seu alvo. Parece que o senso comum, tão depreciado, resistiu a todos os ataques: as intenções do autor despertam ainda nosso interesse; sentimos ainda que a literatura remete ao mundo e ainda somos sensíveis a seu estilo... É conseqüentemente hora de avaliar a situação. Ao tomar como foco, neste livro, sete noções que estão no âmago dessas controvérsiasliterárias — a literariedade, o autor, o mundo, o leitor, o estilo, a história e o valor — e tentando traçar sua genealogia, Antoine COMPAGNON oferece essa avaliação. Mostra assim que o fracasso da teoria literária vem de seu hábito de levar a extremos absurdos críticas que poderiam, se assim não fosse, se justificar. Logo, melhor que se deixar apanhar em oposições radicais, Antoine Compagnon opta por umaposição intermediária entre a teoria literária e a (antiga) aproximação acadêmica. Três exemplos — o autor, o mundo e o estilo — em que a oposição entre as duas abordagens é bem definida, vão nos permitir compreender os meandros dessa controvérsia.


O autor

Para compreender o significado de um texto, o senso comum nos leva a determinar a intenção do autor (o que o autor queria dizer).Assim, voltamo-nos para aspectos de sua biografia para identificar vestígios dessa intenção. A teoria literária nega a relevância de tal investigação na descrição do sentido de um texto. Na verdade, as intenções da pessoa que compôs um texto nunca esclarecem inteiramente sua significação. Mais do que isso, a significação escapa a ela quando os textos, apartados de sua época de seu ambiente cultural,adquirem sentidos que o autor não tinha previsto. O texto literário deve conseqüentemente ser visto como autônomo, e não como a expressão da intenção do autor. Antoine Compagnon reconhece a discrepância entre o que o autor queria dizer e o que seu texto significa (nunca se diz exatamente que se quer dizer).Ainda em sua opinião, não é tão fácil de livrar-se da noção de intenção. Por exemplo, quandonos vemos diante dificuldades devido à obscuridade ou à ambigüidade de um texto, é difícil evitar procurar uma passagem paralela do mesmo autor a fim de esclarecer o sentido do texto em questão. Isso supõe que as diferentes passagens têm em comum alguma coerência (o mesmo espírito, o mesmo tom), e que a coerência implica a intenção. Assim, um defensor coerente da teoria literária, convencido daidéia que um texto deve ser estudado sem referência à intenção, deveria evitar comparar passagens diferentes. Mas todos o fazem... E, de fato, presumir que nenhuma intenção esteja na base composição de um texto significaria considerá-la o resultado de um processo aleatório, como o decorrente da ação de um macaco digitando num teclado de computador. O erro da teoria literária parece ter consistido...
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