Colonização, miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasileira resenha critica

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Colonização, miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasileira
Ronaldo Vainfas
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Brasil, quinhentos anos de história, se adotarmos a periodização de Varnhagen, ou sabe-se lá quantos séculos, se optarmos pelo seguidor e rival do Visconde de Porto Seguro, mestre Capistrano de Abreu , cujo primeiro capítulo dos Capítulos de história colonialtem por título “Antecedentes indígenas”, embora deles o capítulo pouco trate na verdade. De todo modo, se deixarmos de lado as idealizações indigenistas ou indianistas, seja à moda romântica, seja na versão mais atual de uma “história politicamente correta”, é caso de realçar o extraordinário encontro de povos posto em cena pelo descobrimento e pela colonização efetuada pelos portugueses na “suaAmérica” – a que lhes reservou o Tratado de Tordesilhas. Encontro decerto conflitivo, muitas vezes trágico, haja vista o extermínio de milhares de índios e o cativeiro destes e dos africanos, como se sabe, desde o primeiro século. Mas encontro que pôs em contato culturas radicalmente distintas de três continentes, refazendo valores, recriando códigos de comportamento e sistemas de crenças, sem falarna “miscigenação étnica”, outrora chamada de “miscigenação racial”. Miscigenação étnica e mescla cultural são problemáticas afins, embora não idênticas, que atualmente estão na ordem do dia na historiografia ocidental produzida sobre a colonização ibérica nas Américas. No entanto, é questão que, entre nós, vem de longe, modificando-se ao longo do tempo os termos, a valoração e o sentido dasinterpretações.

* Professor Titular de História Moderna da Universidade Federal Fluminense.

AGO–1999

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TEMPO 8

A problemática da mescla cultural na história do Brasil foi colocada em nossos horizontes de investigação desde os começos da historiografia nacional. Apareceu pela primeira vez, sob o rótulo da “miscigenação racial”, como proposta vencedora do concursopromovido na década de 1840 pelo recém-fundado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Formulou-a o alemão Karl von Martius, naturalista, botânico, viajante que deixou preciosos registros sobre a natureza e as gentes do Brasil no século XIX. Em Como se deve escrever a história do Brasil, Martius afirmou que a chave para se compreender a história b rasileira residia no estudo do cruzamento das trêsraças formadoras de nossa nacionalidade – a branca, a indígena, a negra –, esboçando a questão da mescla cultural sem contudo desenvolvê-la. Martius, como naturalista ilustrado, pensava o “hibridismo racial” do mesmo modo como pensava o cruzamento de plantas ou animais, porém sua relativa sensibilidade etnológica fê-lo ao menos rascunhar o que já se chamou de “sincretismo” cultural e atualmente seformula como circularidades ou hibridismos culturais.1 É verdade que o naturalista alemão priorizou a contribuição portuguesa na formação da nacionalidade brasileira e praticamente silenciou sobre o papel da “raça” negra, para usar o seu vocabulário, reservando ao índio – um tanto idealizado, vale dizer – papel secundário. Mas não resta dúvida de que, já com von Martius, a questão da miscigenaçãoétnica e cultural estava posta. Seria mesmo caso de ressaltar a paradoxal abertura intelectual do IHGB ao premiar proposta que, malgré o conservadorismo do autor, apontava para questão desafiadora, admitindo, ao menos em tese, o papel do negro na formação do povo brasileiro – e isto num tempo em que os africanos e seus descendentes eram escravos, sem direito à cidadania no nascente impériobrasileiro. Tão inovadora era a proposta de von Martius que ninguém na verdade a seguiu ao longo do século XIX e nas décadas após a Abolição e a proclamação da República. No século XIX, a grande história do Brasil foi a de Francisco Adolpho de Varnhagen, a quem já mencionei, paulista de Sorocaba, descendente de alemães, homem de confiança do imperador Pedro II e autor da portentosa História geral do...
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