Cinema novo

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ORIGENS DO CINEMA NOVO: A CULTURA POLÍTICA DOS ANOS 50 ATÉ 1964 (1)
Pedro Simonard *
Não é, portanto, dizendo “não sou mais um pequeno-burguês, movimento-me livremente no universal” que o intelectual pode se unir aos tabalhadores. É, justamente ao contrário, pensando: “sou um pequeno-burguês; se para tentar resolver minha contradição, alinhei-me ao lado da classe operária e camponesa, nãodeixei por isso de ser um pequeno-burguês” (Sartre).(2)
Quais eram os elementos que a caracterizavam e o que era a cultura política compartilhada por muitos intelectuais e militan-tes populistas e de esquerda brasileiros durante os anos 50 e começo dos anos 60? Durante esse período, o Brasil sofreu um intenso processo de industrialização com resultados sociais muito contraditórios (3). O perfil dasociedade brasileira passava rapidamente de agrário-exportador a industrial, com uma forte urbanização causada pela migração de milhões de pessoas do campo para as cidades, mormente para o Rio e São Paulo. O mercado de trabalho e o mercado consumidor cresceram junto com as camadas médias urba-nas, de onde saíram os intelec-tuais e simpatizantes dos setores populistas e de esquerda. Dentro dessecontexto, os intelec-tuais aderiram a uma mesma leitura da realidade brasileira, que, grosso modo, caracterizava o país como subdesenvolvido, cultural-mente colonizado, onde as “classes fundamentais” - a burguesia e o proletariado - eram incipientes, pouco desenvolvidas[i].
Um dos pilares sobre os quais essa cultura política - na qual subdesenvolvimento e dominação cultural eram categorias centrais -se sustentava era a busca do que seria “nacional” e “democrático”. Os debates relativos a estes atributos inseriam-se numa problemática mais ampla, a da questão desen-vol-vimentista. A maneira mais rápida do país superar suas contradições seria desenvolver-se economicamente de uma maneira autôno-ma e independente. Tal desenvolvimento teria de apoiar-se no fortalecimento das “forçasprogressistas”, formadas pela burguesia industrial nacionalista, o proletariado e os setores técnicos da classe média que, após serem ideologi-camente esclarecidas pelos intelectuais “progressistas”, se tornariam uma “vanguarda política capaz e bem organizada” (4). Àquela época, segundo uma leitura reducionista do marxismo feita de acordo com os objetivos que se pretendia alcançar, desconsideravam-se asparticularidades conjunturais e grandes questões teóricas gerais do próprio marxismo. Assim, para que o Brasil se desenvolvesse, uma “revolução burguesa” seria necessária, ou seja, o desenvolvimento das forças produtivas proporcionaria à burguesia e ao proletariado as condições histórico-materiais para que se tornassem classes sociais para si, conscientes do seu papel histórico. Só havendo classes sociaisconscientes, definidas e antagônicas, as contradições se acirrariam e as condições para a sua solução estariam colocadas. De acordo com esse esquema, a acumulação capitalista e as conquistas operárias fariam parte de um mesmo e único processo.
Nessa conjuntura sócio-político e cultural, que vai da morte de Getúlio Vargas até o golpe militar de 1964, o Partido Comunista do Brasil (PCB) tornou-seum dos mais importantes atores políticos. Ele “adquiriu um papel crescente na estrutura do desen-volvimento nacionalista” (Pécaut, 1990:141). Apesar de estar na ilegalidade desde 1947, o Partido contava com numerosos e influentes intelectuais que gravitavam em torno dele, seja como militantes, seja como simpatizantes (ibid: 142). A aproximação desses intelectuais se deu, entre outros motivos,graças à participação do PCB na campanha pela nacionalização do petróleo, que culminou com a criação da Petrobras, em 1953, ao seu posicionamento a favor da industrialização nacional e da formação de uma ampla coalizão nacionalista e ao seu posicionamento como “vanguarda” do movimen-to pelas “refor-mas de base” (ibid.). Sua influência vai-se fazer sen-tir de forma marcante sobre o ISEB (Instituto...
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