Catolicismo popular

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Norte Ciência, vol. 2, n. 1, p. 1-26 (2011)

OUTRA AMAZÔNIA: OS SANTOS E O CATOLICISMO POPULAR
Raymundo Heraldo Maués Universidade Federal do Pará Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais

Há diversos estereótipos em voga sobre a Amazônia, região periférica em relação ao Brasil e ao mundo. Uma dessas versões estereotipadas tem características mais ou menos eruditas. Nela, aAmazônia é pensada, basicamente, no que diz respeito a seus aspectos humanos e sociais, como área essencialmente indígena e habitada, também, por populações neobrasileiras hostis a esses índios, assim como por ocupantes motivados por interesses alienígenas, muitos deles vinculados a “grandes projetos”, perniciosos à natureza e ameaçadores do equilíbrio ecológico na grande região, mas cujosefeitos poderão se espalhar pelo mundo todo, com consequências calamitosas para a humanidade 1. Como acontece com todos os estereótipos, não deixa de haver verdade nisso, mas trata-se de verdade parcial e distorcida, que esconde outros aspectos importantes sobre esse grande território, cuja riqueza não se reduz à tão decantada biodiversidade, mas que comporta, também, grande diversidade étnica, social ecultural, o que constitui, aliás, patrimônio digno de ser conhecido e preservado (não evidentemente como algo intocável, pois os processos culturais e sociais incluem, na sua riqueza e complexidade, aspectos dinâmicos de constante mudança e atualização)2. Como antropólogo, embora já tenha escrito ensaios mais gerais sobre a Amazônia (cf. Maués 1999), desejo, neste trabalho, abordar um tema decaráter mais restrito, de que já tratei em trabalho anterior (Maués 1995), mas para o qual pretendo, aqui, chamar atenção: um aspecto do catolicismo popular de populações amazônicas tradicionais,

Ver a propósito o livro organizado (2004) por Nugent e Harris (s/d), que faz crítica semelhante aos estudos sobre a Amazônia e é, sintomaticamente, intitulado “Some Other Amazonians” (Alguns OutrosAmazônidas), por tratar de aspectos e populações amazônicas normalmente desprezados pela literatura corrente. Não é por acaso que a primeira celebração religiosa do catolicismo popular brasileiro a ser reconhecida, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), como bem de cultura “imaterial”, foi o Círio de Nazaré, realizado todos os anos no mês de outubro, em Belém, fato ocorridono ano de 2004.
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Norte Ciência, vol. 2, n. 1, p. 1-26 (2011)

não indígenas (muitas vezes chamadas “caboclas”, com todo o preconceito que essa expressão comporta). Quem primeiro estudou esse tema, do ponto de vista antropológico, foi Eduardo Galvão, em seu belo livro “Santos e Visagens” (1955), que persiste sendo uma das monografias mais importantes para se entender aspectosfundamentais da Amazônia de ontem e de hoje. Galvão tratou do tema numa área distinta daquela em que trabalhei. Ele estudou o catolicismo popular de populações tradicionais amazônicas no Baixo Amazonas, enquanto meu estudo (parcialmente inspirado no dele) foi feito numa área litorânea do estado do Pará, a chamada região do Salgado e, mais particularmente, no interior do município de Vigia, especialmentenuma povoação de pescadores chamada Itapuá (na ilha do mesmo nome), onde residi, juntamente com Maria Angelica Motta Maués (minha mulher e antropóloga), durante quatro meses seguidos (dezembro de 1975 a março de 1976). Apesar de ter iniciado a pesquisa de campo vinte anos depois da publicação do livro de Galvão (continuei trabalhando no Salgado até 1985 e alunos meus trabalharam ali maisrecentemente), encontrei semelhanças muito grandes quanto às concepções e práticas das populações do Baixo Amazonas, no que diz respeito ao catolicismo e à pajelança rural. Algumas especificidades locais representam diferenças que podem ser consideradas como resultado não só das diferenças de tempo como do afastamento no espaço. Nada, porém, que não permita certa generalização, em termos culturais e...
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