Caminhos da sociologia no brasil

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CAMINHOS DA SOCIOLOGIA NO BRASIL:
Modos de Vida e Experiência
Elisabeth Souza Lobo*
RESUMO: O artigo se propõe identificar as diversas trilhas temáticas que os estudos e pesquisas sobre
as classes trabalhadoras nos anos 80 percorreram até desaguar na emergência de um novo tema unificador - os
modos de vida - que desloca a ênfase das condições de vida e das práticas político-institucionais daclasse operária
para as práticas cotidianas e representações, as tradições e trajetórias distintas dos trabalhadores e trabalhadoras,
propondo uma abordagem que, na encruzilhada da Sociologia com a História Social e a Antropologia Cultural, resgata
a heterogeneidade da formação e as experiências diferenciadoras das classes trabalhadoras.
UNITERMOS: classes trabalhadoras, modos de vida,práticas cotidianas, experiência, cultura,
heterogeneidade.
A tematização dos modos de vida, sob diferentes registros, nos estudos e pesquisas sobre classes
trabalhadoras, coloca a necessidade de explicitar o significado e as implicações do tema. O que se está entendendo
por “modos de vida”? Trata-se de um tema emergente ou reemergente?
O texto que segue se inscreve nesta ordem de preocupações.
*(I.M.) Professora do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP.
LOBO, Elisabeth Souza. Caminhos da sociologia no Brasil: modos de vida e experiência. Tempo Social;
Rev. Sociol. USP, 4(1-2): 7-15, 1992.
Nos estudos sobre os trabalhadores, é possível identificar diferentes tradições temáticas, entre as quais a
das pesquisas sobre “condições de vida das camadas populares” na linhagem do clássicolivro de Engels sobre a
classe trabalhadora inglesa (Engels,1960). O tema, como observa LeiteLopes(1984), reflete emparte as preocupações
dospensadores soc i al istas do século XIX com o s destinos do s trabalhadores fabri s , e, por outro l ado , remete ao
discurso bio-social próprio aos relatórios sobre “as condições morais, sociais e físicas” da população laboriosa
percebida como perigosa, nocontexto de desordem e miséria dos primórdios de industrialização. O sistema de
fábrica, articulado à miséria urbana e à desordem moral, se constitui em temática das pesquisas sobre padrões de
vida, habitação e organização familiar. As condições materiais de existência, vistas por angulos diversos, eram
portadoras de uma mesma chave explicativa: das possibilidades da consciência e da revolta, etambém dos instintos
e más disposições que precisavam ser disciplinados e racionalizados.
Se os estudos sobre as condições de vida constituem uma das vertentes da temática, a emergência do
tema dos modos de vida traz embutidas muitas preocupações, algumas delas explicitadas no relatório da jornada que
organizou o Réseatl Modes de Vie (1984). No texto de introdução, Francis Godard aponta “odilema da sociologia dos
modos de vida, dividida entre uma abordagem da vida cotidiana próxima à antropologia cultural e os estudos sócioeconômicos e sócio-políticos do processo de produção dos objetos urbanos”.
Uma outra vertente também imbricada na temática dos modos de vida passa pelas pesquisas feministas
centradas algumas na articulação entre práticas produtivas e reprodutivas e naimportancia das práticas reprodutivas
(Chabaud & Fougeyrollas-Schwebel, 1986, p. 113-129), como o trabalho doméstico para a construção dos espaços e
tempos sociais. Se a articulação produção/reprodução muitas vezes se limita à busca de mecanismos articuladores, o
que novamente reduz as práticas sociais a uma mecanica de estruturas, as formulações de algumas pesquisas
feministas no sentido de umasociologia das relações sociais (Kergoat, 1986, p. 79-93), abriram caminho para uma
problematização do gênero como relação histórica e simbólica, construída na experiência do masculino e feminino
nas relações sociais e instituinte de práticas que se dão nos vários espaços sociais. Assim as representações do
masculino e feminino, como a do (a) jovem, do(a) velho(a) ou do(a) migrante, sempre...
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