Caixa preta

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CAIXA-PRETA Ivan sant'anna CAIXA -PRETA OBJElIA (c) 2000 by Ivan Sant'Anna Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA OBJETIVA LTDA.. rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro - RJ - CEP: 22241-090 Tel.: (21) 556-7824 - Fax: (21) 556-3322 www.objetiva.com.br Capa Anna Feith Ilustrações/Diagramas Fábio Darci Foto da capa Scoop/Lefebvre - Paris Match Revisão Renato Bittencourt Umberto deFigueiredo Editoração Eletrônica Abreu's System Ltda.

Ao comandante Fernando Munia de Lima e Silva, do VP-375, dedico este trabalho.

"Nós não pedimos para ser eternos, mas apenas para não ver os atos e as coisas perderem subita-mente o seu sentido." An.toine de Saint-Exupéry Vôo Noturno

Introdução

S empre que ocorre um desastre de avião, uma das primeiras providên-cias das equipes desocorro, ao chegar ao local, é resgatar a caixa-preta da aeronave. Trata-se, na verdade, de um dispositivo formado não por uma, mas por duas caixas (que, por sinal, não são pretas, mas sim alaranjadas), forte-mente blindadas (à prova de choque, incêndio ou imersão), que estão ali justamente para ajudar a revelar o que se passou a bordo, na hipótese de um desastre. Uma dessas caixas é o CVR, iniciais deCockpit Voice Recorcler (gravador de vozes da cabine de comando), que registra as conversas dos tripulantes e outros sons emitidos no cockpit nos últimos 30 minutos de vôo. A outra caixa é o FDR, Fltght Data Record'er (gravador de parâmetros de vôo), que registra dados importantes para a investigação de um acidente, tais como rumo, velocidade e altitude do avião nas últimas 25 horas. Além dessasinformações técnicas, não raro a caixa-preta revela o drama ocorrido na cabine nos segundos que precederam o choque. E comum um comandante deixar gravado apenas um lamento de agonia, "Meu Deus!", antes de bater, ou comandar uma seqüência de ordens desesperadas para o co-piloto, do tipo, "puxa, para cima, puxa, puxa, para cima". O relato que o leitor irá acompanhar nas páginas deste livro é umaespé-cie de caixa-preta dos três vôos aqui narrados, que resultaram em tragédia, desde o momento em que os aviões decolaram até o desfecho final. 9 Caixa-Preta

O assunto não me ocorreu por acaso, pois, desde pequeno, sou apai-xonado pela aviação. Até hoje sou daqueles que, quando estou num avião de carreira, gosto de sentar numa poltrona de janela, de onde posso ver melhor a corrida de decolagem ea aproximação para o pouso. Durante a viagem, presto atenção às nuvens e à paisagem sob as asas. Sinto-me bem no burburinho dos aeroportos, principalmente quando há um restaurante envidraçado, dando para a pista. Escolho uma mesa bem localizada, peço um drinque e fico vendo a movimentação dos aviões, saindo e chegando. Gosto do cheiro de querosene que exala dos jatos e, ainda mais, do silvoestridente de suas turbinas. Lembro-me bem de minha primeira viagem, aos nove anos de idade, em 1949, quando, acompanhado de meus avós, voei do Rio de Janeiro para Goiás num bimotor a pistão Douglas DC-3 da Aerovias Brasil. Meu primeiro vôo internacional aconteceu em dezembro de 1952. Eu tinha 12 anos e minha família se mudou para Londres. Mesmo passados qua-se 50 anos, recordo-me do avião, umquadrimotor Argonaut da BOAC, com capacidade para quarenta e poucos passageiros, que me parecia gigantesco àquela época. De tão excitado, não consegui dormir durante o vôo. Lembro-me, por exemplo, do pouso e da decolagem em Dacar. Lembro-me do deser-to do Saara, cuja imensidão contemplei maravilhado da janela. Logo, não é de se estranhar que eu tenha tirado meu brevê de piloto pouco depois de havercompletado 18 anos. Fiz o curso prático e teórico e prestei exame no aeroclube do Aeroporto Carlos Prates, em Belo Horizonte. Pilotei monomotores ao longo de 25 anos. Pratiquei, é verdade, apenas aviação esportiva, jamais tendo pilotado um avião de carreira. Me envolvi em três incidentes aéreos: uma queda, numa movimentada avenida da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro; um pouso desastrado, também no...
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