Bronislaw malinowski

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  • Publicado : 20 de setembro de 2012
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Este texto procura refletir sobre as relações entre antropologia e trabalho de campo ao propor uma releitura dos célebres esclarecimentos prestados por Bronislaw Malinowski no capítulo de abertura dos Argonautas do pacífico ocidental, livro originalmente publicado em 1922. Considerando tanto a amplitude da questão quanto a importância do escrito a ser comentado, tentarei, antes de mais nada,deixar claro o que este texto não pretende ser. Como se sabe, naquele capítulo, Malinowski apresenta "uma descrição dos métodos utilizados na coleta do material etnográfico" (1978, p. 18) referente ao "trabalho de campo" que realizou entre os nativos das Ilhas Trobriand, uma população de 1200 melanésios da costa nordeste da Nova Guiné, durante a década de 1910. Pouco tempo depois, essa apresentaçãopassou a ter lugar paradigmático na antropologia, alçada ora a marco de uma verdadeira revolução nos referenciais teóricos e nos objetivos gerais da disciplina, ora a padrão original e exemplar em termos metodológicos. Pois bem, meu propósito não é discutir o lugar ou as contribuições de Malinowski para a antropologia, nem analisar a produção de sua pesquisa tendo como parâmetro o contextoespecífico ou geral em que se insere, nem me posicionar sobre a questão de se ele efetivamente criou o "trabalho de campo", nem, enfim, incursionar pelos modos pelos quais Malinowski construiu a "autoridade etnográfica de suas ficções" ou como "convenceu" seus leitores do que disse.
O propósito deste texto é realizar uma leitura de Malinowski, reconhecendo assim sua centralidade na disciplina, que consigaproblematizar a associação privilegiada que costumamos fazer entre trabalho de campo e antropologia. Admito que há algo de disparatado entre os meios e os fins de minha empreitada. Afinal, Malinowski, independentemente das controvérsias em torno de questões de precedência quanto ao método e de fidelidade quanto ao ideal, é considerado referência obrigatória em se tratando do "modo padrão dapesquisa etnográfica" (Kuper, 1996); aquele que estabeleceu a "estratégia básica que é fundamento comum entre antropólogos" (Salzman, 1996, p. 364). Ele é o "etnógrafo do etnógrafo", protagonista da "viagem paradigma para o outro-lugar-qualquer paradigma" (Geertz, 1988: pp. 4 e 75). É o "herói" de um mito, o "trabalho de campo", e o capítulo de abertura dos Argonautas, espécie de "mapa" ou "roteiro"míticos para os antropólogos (Stocking, 1992, pp. 16 e 56; ver também Carrithers, 1996, p. 230; Young, 1979, p. 1). Uma de suas alunas refere-se exatamente a uma das qualidades das etnografias de Malinowski, a saber, transmitir ao leitor a sensação de estar lá, passando ele mesmo pela experiência do contato com remotos nativos (Richards, 1971). Esse, no entanto, era apenas parte do fascínio queexerceu na antropologia; outra dimensão muito importante é o fato de Malinowski, por meio de seus textos e de suas aulas, ter se tornado referência fundamental para monografias hoje consideradas "clássicas", igualmente baseadas em "trabalho de campo" (Kuper, 1996; Urry, 1984; Kilani, 1990; Boon, 1982).
Não é por acaso, portanto, que o (re)nome de Malinowski consista em um elemento imprescindível daassociação, já mencionada, entre antropologia e trabalho de campo. Urry, em um texto dedicado a traçar a "história dos métodos de campo", indica que "em torno dos anos de 1930, o ideal do trabalho de campo individual em uma única cultura havia se tornado a norma aceita da investigação antropológica" (1984, p. 54). Stocking, que, por sua vez, acompanha a elaboração desse ideal na antropologiabritânica, termina sua análise com Malinowski, confirmando que "o trabalho de campo mediante observação participante, preferivelmente em um grupo social de dimensões reduzidas bem diferente daquele ao qual pertence o investigador, é o marco da antropologia social/cultural" (1992, 16). Estes e outros autores apontam também o papel que Malinowski desempenhou na constituição da antropologia como...
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