Breve estudo sobre "auto da barca do inferno"

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  • Publicado : 21 de março de 2013
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Literatura Portuguesa I
Do livro Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

O Auto da Barca do Inferno é a obra mais conhecida e representativa do teatro vicentino que tem como cenário um ancoradouro onde se vê duas barcas: a barca que conduz ao Inferno, tendo como responsável o próprio Diabo e a barca da Glória, que tem como barqueiro o Anjo. A peça se desenrola toda nesse local, à medida queos recém-mortos vão chegando para o embarque.
É curioso notar a relação entre o cenário adotado pelo autor com a mitologia empregada nas histórias gregas. Para se chegar ao destino (Paraíso ou Inferno), os mortos têm que navegar por um rio, semelhante ao que se tem nas histórias helênicas que, para chegar ao hades, as almas têm que tomar um barco. Até mesmo a figura das moedas, que eram colocadassobre os olhos dos mortos na hora da queima do corpo, segundo a tradição grega, para pagar o barqueiro é mostrada do auto, como vemos nesse trecho:

DIABO – Oh! Mui muito me espanto,
não vos livrar o dinheiro...
ONZENEIRO – Somente para o barqueiro,
não me deixaram nem tanto.

A obra de Gil Vicente segue os preceitos do que era imposto pela religião católica na época vigente, IdadeMédia. Assim, a disputa entre o bem e o mal e o julgamento das almas após a morte, de acordo com suas ações na Terra, são temas centrais. A disposição e o modo como são colocados os personagens também é interessante, a começar pela figura do Diabo, que é o que mais aparece em cena, o que evidencia sua importância no auto.
A primeira característica do Diabo que podemos observar no auto é aironia e, ironia esta que está ligada diretamente à polidez, principalmente no que tange ao modo como este personagem trata as almas que chegam para embarcar. Ele usa de nominações (como no caso do frade, que, ironicamente, o Diabo chama-o, ora de padre marido, ora de padre-capacete), elogios e evocações altamente bajuladoras a fim de ridicularizar os demais mostrando que, não importa o posto quetiveram na Terra ou como eram tratados ou vistos, eles iriam atravessar o trajeto na barca dele. É o que se pode notar nas duas passagens colocadas abaixo, o qual a primeira mostra a recepção que o Diabo dá ao fidalgo, evocando o poder que teve na Terra que não mais serviria para ele naquele lugar e a recepção dada ao sapateiro, ironizando desde já suas atitudes, atribuindo a ele nominação de santo.DIABO – Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras que é festa!
Verga alta! Âncora a pique!
- Ó poderoso dom Anrique!
Cá vinde vós? Que cousa é esta?

Vem um sapateiro com o seu avental e carregado de fôrmas, e chega ao batel infernal, e diz:
SAPATEIRO – Ó da barca!
DIABO – Quem vem í?
Santo sapateiro honrado,
Como vens tão carregado?
SAPATEIRO – Mandaram-me virassim...

O Diabo não condena ninguém. As almas que vinham chegando, ao saber que a barca se encaminhava ao Inferno, iam direto à do Anjo, que se negava a recebê-los devido aos maus atos que praticaram. Sem muito que fazer, voltavam ao Diabo que, com sua competência em argumentação e persuasão, e ainda com sua capacidade em penetrar na mente humana – como foi com o corregedor que, mesmo tendoescondido suas fraudes e recepções de propina na hora das confissões, o Diabo teve consciência desses seus colocou-o na situação de pecador – faziam as almas refletirem sobre suas vidas terrenas e as convenciam de entrarem em sua barca, mesmo porque eles teriam de percorrer o rio de qualquer maneira.
Outra característica do Diabo que aparece é a sua crueldade – que não poderia deixar de aparecer,já que era a visão que a Igreja pregava sobre esta entidade – vista principalmente na sua conversa com o fidalgo. Ele, simplesmente, jogou na cara de dom Anrique que sua mulher que ficara na Terra chorou de alegrias por sua morte e que rezara em agradecimento deste mesmo fato. Além disso, o Diabo fala ao moço que carrega a cadeira do fidalgo que é outra cadeira que espera por eles: a das dores e...
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