Boniteza de um sonho

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  • Publicado : 9 de março de 2012
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Boniteza de um sonho - Aprender e ensinar com sentido

Moacir Gadotti*

A beleza existe em todo lugar. Depende do nosso olhar, da nossa sensibilidade; depende da nossa consciência, do nosso trabalho e do nosso cuidado. A beleza existe porque o ser humano é capaz de sonhar.
Inspirei-me em Paulo Freire para escrever esse livro. Paulo Freire nos fala em sua Pedagogia da Autonomia da "bonitezade ser gente", da boniteza de ser professor. Coloquei um título que fala de sonho e de sentido que querem dizer a mesma coisa. "Sentido" quer dizer caminho não percorrido mas que se deseja percorrer, portanto, significa projeto, sonho, utopia. Aprender e ensinar com sentido é aprender e ensinar com um sonho na mente. A pedagogia serve de guia para realizar esse sonho.
Paulo Freire, em 1980, logoapós voltar de 16 anos de exílio, reuniu-se com um grande número de professores em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Falou-lhes de esperança, de "sonho possível", temendo por aqueles e aquelas que "pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de anunciar", aqueles e aquelas que, "em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundoengajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, que em lugar desta viagem constante ao amanhã, se atrelem a um passado de exploração e de rotina".
Dezessete anos depois, em 1997, em seu último livro, lançado duas semanas antes de falecer, ele se mantinha fiel à mesma linha de pensamento, reafirmando o sonho e a utopia diante da "malvadez neoliberal", diante do "cinismo de sua ideologia fatalista e asua recusa inflexível ao sonho e à utopia". Denúncia de um lado, anúncio de outro: a sua "pedagogia da autonomia" frente à pedagogia neoliberal.
Lembrando os cinco anos da morte de Freire, nesse pequeno livro, quero retomar o que ele disse e entender o seu significado no contexto de hoje. Paulo Freire nos falava da "boniteza" do sonho de ser professor de tantos jovens desse planeta. Se o sonhopuder ser sonhado por muitos deixará de ser um sonho e se tornará realidade.
A realidade, contudo, é muitas vezes bem diferente do sonho. Muitos de meus alunos e alunas, seja na Pedagogia, seja na Licenciatura, não pensam em se dedicar às salas de aula. Muito revelam desinteresse em seguir a carreira do magistério, mesmo estando num curso de formação de professores. Pesam muito nesse decisão ascondições concretas do exercício da profissão. Preparam-se para ser professor e irão exercer outra profissão.
O brasileiro desvaloriza o professor. É o que se poderia deduzir de um dito que se tornou popular nas últimas décadas não Brasil: "Quem sabe faz, quem não sabe ensina". É sinistro. Essa destruição da imagem do professor irá custar muito caro, dizia já em 1989, o jornalista Leonardo Trevisan:"Todos dizem que gostam muito dos professores, mas não chegam a incomodar-se muito com o fato de que há tempos eles recebem um salário de fome. O salário é a parte mais visível de uma condição – da qual decorre um papel social que se descaracterizou por completo... Só quem não quer ver não percebe o sentimento de cansaço, de esgotamento de expectativas de quem encarava com dignidade o seudesempenho profissional".
A situação vem se arrastando há anos. Tenho 41 anos de magistério e não tenho visto grandes melhorias. Ao contrário, tenho ouvido muitas promessas. As melhorias existem aqui e acolá, mas são pontuais e localizadas – servem apenas de exemplo – são conjunturais e não estruturais, são provisórias, passageiras e não permanentes. Correspondem a uma política de governo e não a umapolítica pública de estado.
Por isso continuo me perguntando: "Por que sou professor?" É uma pergunta que ouço com freqüência também entre meus pares.
A resposta talvez possa ser encontrada numa mensagem deixada por um prisioneiro de campo de concentração nazista na qual, depois de viver todos os horrores da Guerra – "crianças envenenadas por médicos diplomados; recém-nascidos mortos por...
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