Bocage

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Sonetos e Outros Poemas, de Bocage Fonte: BOCAGE, Manuel Maria Barbosa Du. Soneto e outros poemas. [São Paulo] : FTD, 1994. (Grandes Leituras). Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Antonio Luiz Lopes –Guarulhos/SP Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para . Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quiser ajudar de alguma forma, mande um e-mail para ou .SONETOS E OUTROS POEMAS Bocage

I - SONETOS Incultas produções da mocidade Exponho a vossos olhos, ó leitores ; Vede-as com mágoa, vede-as com piedade; Que elas buscam piedade, e não louvores; Ponderai da Fortuna a variedade Nos meus suspiros, lágrimas e amores ; Notai dos males seus a imensidade, A curta duração dos seus favores ; E se entre versos mil de sentimento Encontrardes alguns, cujaaparência Indique festival contentamento, Crede, ó mortais, que foram com violência Escritos pela mão do Fingimento, Cantados pela voz da Dependência.

Chorosos versos meus desentoados, Sem arte, sem beleza, e sem brandura, Urdidos pela mão da Desventura, Pela baça Tristeza envenenados : Vede a luz, não busqueis, desesperados, No mudo esquecimento a sepultura ; Se os ditosos vos lerem sem ternura,Ler-vos-ão com ternura os desgraçados : Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco, Da maldizente voz a tirania : Desculpa tendes, se valeis tão pouco ; Que não pode cantar com melodia Um peito, de gemer cansado e rouco . De suspirar em vão já fatigado , Dando trégua a meus males eu dormia ; Eis que junto de mim sonhei que via Da Morte o gesto lívido, e mirrado : Curva fouce nopunho descarnado Sustentava a cruel, e me dizia : "eu venho terminar tua agonia ; morre, não peneis mais, oh desgraçado ! " quis ferir- me , e de Amor foi atalhada, que armado de cruentos passadores aparte, e lhe diz com voz irada : "Emprega noutro objeto os teus rigores ; que esta vida infeliz está guardada para vítima só de meus furores. " Já sobre o coche de ébano estrelado Deu meio giro a noiteescura e feia ; Que profundo silêncio me rodeia Neste deserto bosque, à luz vedado ! Jaz entre as folhas Zéfiro abafado , O Tejo adormeceu na lisa areia ; Nem o mavioso rouxinol gorgeia, Nem pia o mocho, às trevas costumado : Só eu velo, só eu, pedindo à sorte Que o fio, com que está minh'alma presa À vil matéria lânguida, me corte : Consola-me este horror, esta tristeza ; Porque a meus olhos seafigura a morte No silêncio total da Natureza. Mavorte, porque em pérfida cilada O cruel moço alígeto o ferira, Não faz caso da mãe, que chora e brada, Quer punir o traidor, que lhe fugira : Na sinistra o pavês, na dextra a espada, Nos ígneos olhos fuzilante a ira, Pule à negra carroça ensangüentada, Que Belona infernal côas Fúrias tira : Assim parte, assim voa ; eis que vê posto No colo de Maríliao deus alado, No colo aonde tem mimoso encosto: Já Marte arroja as armas, e aplacado Diz, inclinando o formidável rosto :

"Valha-te, Amor, esse lugar sagrado ! ". Marília, nos teus olhos buliçosos Os Amores gentis seu facho acendem ; A teus lábios voando os ares fendem Terníssimos desejos sequiosos: Teus cabelos subtis e luminosos Mil vistas cegam, mil vontades prendem : E em arte de Minerva senão rendem Teus alvos curtos dedos melindrosos : Resiste em teus costumes a candura, Mora a firmeza no teu peito amante, A razão com teus risos se mistura: És dos céus o composto mais brilhante; Deram-se as mãos Virtude e Formosura Para criar tua alma e teu semblante. Oh, tranças, de que Amor prisões me tece, Oh, mãos de neve, que regeis meu fado ! Oh tesouro ! oh mistério ! oh par sagrado ,...
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