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1- NO MANANTIAL (João Simão Lopes Neto)

Está vendo aquele umbu, lá embaixo, à direita do coxilhão?
Pois ali é a tapera do Mariano. Nunca vi pêssegos mais bonitos que os que amadurecem naquele abandono; ainda hoje os marmeleiros carregam que é uma temeridade!
Mais para baixo, como umas três quadras, há uns olhos-d'água, minando as pedras, e logo adiante uns coqueiros; depois pega um cordão dearaçazeiros.
Diziam os antigos que ali encostado havia um lagoão mui fundo onde até jacaré se criava.
Eu, desde guri conheci o lagoão já tapado pelos capins, mas o lugar sempre respeitado como um tremedal perigoso: até contavam de um mascate que aí atolou-se e sumiu-se com duas mulas cargueiras e canastras e tudo...
Mais de uma rês magra ajudei a tirar de lá; iam à grama verde e atolavam-selogo, até a papada.
Só cruzam ali por cima as perdizes e algum custo leviano.
Com certeza que as raízes do pasto e dos aguapés foram trançando uma enredoiça fechada, e o barro e as folhas mortas foram-se amontoando e, pouco a pouco, capeando, fazendo a tampa do sumidouro.
E depois nunca deram desgosto na ponta do lagoão, porque, se dessem, a água corria e não se formaria o mundéu…
Mas, ondequero chegar: vou mostrar-lhe, lá, bem no meio do manancial, uma coisa que vence nunca pensou ver; é uma roseira, e sempre carregada de rosas...
Gente vivente não apanha as flores porque quem plantou a roseira foi um defunto... E era até agouro um cristão enfeitar-se com uma rosa daquelas!...
Mas, mesmo ninguém poderia lá chegar; o manancial defende a roseira baguala: mal uma firma o pé na beirada,tudo aquilo treme e bufa e borbulha...
Uns carreteiros que acamparam na tapera do Mariano contaram que pela volta da meia-noite viram sobre as mananciais duas almas, uma, vestida de branco, outra, de mais escuro, e ouviram uma voz que chorava um choro mui suspirado e outra que soltava barbaridades...
Mas como era longe e eles estavam de cabelos em pé... - pois nem os cachorros acuavam, sóuivavam... Uivavam... - não puderam dar uma relação mais clara do caso.
E o lugar ficou mal-assombrado.

Mas, onde quero chegar: foi assim, como lhe vou contar. Estes campos eram meio sem dono, era uma pampa aberta, sem estrada nem divisa; apenas os trilhos do gado cruzando-se entre aguadas e querências.
A gradaria, não se pode dizer que era alçada: quase toda orelhada, isso sim,
Mas vivia-se bem,carne gorda sobrava, e portada linda isso era ao cair do laço.
O Mariano apareceu aqui, diz que vindo de Cima da Sena, corrido dos bugres; uns, porque lhe morrera a mulher da bexiga preta, outros ainda, à boca pequena, que não era por santo que ele mudara de cancha.
Mas fosse como fosse, chegou e arranchou-se.
Trazia para o brigadeiro Machado uma carta que devia ser de gente pesada, porque obrigadeiro tratou-o muito bem e decerto foi com o seu consentimento que ele aboletou-se aqui nos pagos.
Tocava uma carreta de tolda, uma ponta de gado manso e uma quadrilha de uranos.
De gente, ele, duas velhuscas, uma menina, uns pretos, campeiros e uma negra mina, chamada mãe Tanásia.
A menina era filha dele; das velhas uma era a avó da criança, e a outra, irmã dessas, vinha a ser tia-avó. Eledava-se por genro da velha, mas não era: havia suspendido com a moça da casa, e depois nunca se proporcionou ocasião de padre para fazer-se o casamento, e o tempo foi passando até que a defunta morreu, ficando a inocente nesse paganismo de não ser filha de casal legítimo... Por sacramento. Mas davam-se bem, todos.
O paisano era trabalhador e entendido nas coisas; desde o torrão para os ranchos, eguinchar, madeiras, cercados, lavouras, tudo passou pelas suas mãos. E tanto falquejava um lingote como semeava uma quarta de tri-go, e já capava um touro como amanonsiava um bagual.
Quando Maria Altina - era a menina, a filha dele - andava nos dezesseis anos, este arranchamento era um paraíso: o arvoredo todo crescido e dando; lavouras, criação miúda, de tudo era uma fartura; havia galpões,...
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