Biologia

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CDD: 128.2

Como é ser um Morcego?♣
THOMAS NAGEL Tradução de Paulo Abrantes e Juliana Orione A consciência é o que torna o problema mente-corpo realmente intratável. Talvez seja por isso que as discussões atuais do problema dão a ela pouca atenção, ou a abordam de modo obviamente errado. A recente onda de euforia reducionista vem produzindo várias análises dos fenômenos e dos conceitosmentais, construídas para explicar a possibilidade de alguma variedade de materialismo, identificação psicofísica ou redução 1 . Mas os problemas com que elas
[Nota dos tradutores: “What is it like to be a bat?” In: Rosenthal, D. (ed.) The Nature of Mind. New York: Oxford University Press, 1991, p. 422-28. Este artigo foi publicado, originalmente, em 1974. A expressão ‘what is it like...’ adquiriu umcaráter quase que técnico na literatura anglo-saxônica de filosofia da mente, para referir-se à consciência ou à experiência fenomênica. Em inglês, esta expressão sugere uma analogia com a nossa própria fenomenologia (o que poderia recomendar uma tradução mais literal, do tipo “Como se parece ser um morcego?”). Porém, o próprio autor, na nota 6 abaixo, adverte que essa leitura ‘analógica’ daexpressão nos faz incorrer no erro de achar que a experiência particular de um sujeito (especialmente um alienígena, ou um indivíduo de uma outra espécie) poderia ser compreendida ou capturada por referência ao nosso próprio caso. Por isso, a nossa escolha recaiu sobre a tradução “como é ser um morcego” que, além de mais legível, não possui essas conotações indesejáveis. Os tradutores agradecem oscomentários feitos a esta tradução pelo Prof. Michael Wrigley que, evidentemente, não pode ser responsabilizado pelos problemas que porventura permaneçam]. 1 São exemplos: J. J. Smart, Philosophy and Scientific Realism (London, 1963); David K. Lewis, “An Argument for the Identity Theory”, Journal of Philosophy, LXIII (1966), republicado com adendo In: David M. Rosenthal, Materialism & the Mind-BodyProblem (Englewood Cliffs, N. J., 1971); Hilary Putnam, “Psychological Predicates” In: Capitan and Merrill, Art, Mind, & Religion (Pittsburgh, 1967), republicado In: Rosenthal, op. cit., como “The nature of Mental States”; D. M. Armstrong, A Materialist Theory of the Mind (London, 1968); D. C. Dennett, Content and Consciousness (London, 1969). Eu estive exCad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 15,n. 1, p. 245-262, jan.-jun. 2005.


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Thomas Nagel

lidam são aqueles comuns a esse ou a outros tipos de redução. E ignora-se o que faz o problema mente-corpo único e diferente do problema água-H2O, ou do problema máquina de Turing-máquina da IBM, ou do problema raio-descarga elétrica, ou do problema gene-DNA, ou do problema carvalho-hidrocarbono. Todo reducionista tem a sua analogiapredileta tirada da ciência moderna. É muito pouco provável que algum dentre esses diversos [unrelated] exemplos de redução bem sucedida ilumine a relação entre a mente e o cérebro. Mas os filósofos compartilham da fraqueza humana de explicar o que não é compreensível em termos que se adequam ao que lhes é familiar e bem compreendido, ainda que completamente diferente. Isso levou à aceitação dedescrições [accounts] pouco plausíveis do mental, porque permitiam tipos familiares de redução. Eu tentarei explicar porque os exemplos usuais não nos ajudam a compreender a relação entre mente e corpo, e porque nós de fato não temos, presentemente, qualquer concepção do que seria uma explicação de um fenômeno mental em termos físicos. Sem a consciência, o problema mente-corpo seria bem menosinteressante. Com a consciência, ele parece insolúvel [hopeless]. O aspecto mais importante e característico dos fenômenos mentais conscientes é muito mal compreendido. A maioria das teorias reducionistas nem mesmo tentam explicá-lo. Um exame cuidadoso mostrará que nenhum dos conceitos atualmente disponíveis de redução se aplica a tal aspecto. Talvez uma nova forma teórica possa ser concebida com esse...
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