Barthes

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SEMIOLOGIA DO AMOR: NOTAS PARA UMA LEITURA DE “FRAGMENTOS DO DISCURSO AMOROSO”, DE ROLAND BARTHES Rodrigo da Costa Araújo (UFF/FAFIMA) rodricoara@uol.com.br

O sujeito apaixonado é atravessado pela idéia de que está ou vai ficar louco. Roland Barthes (FDA, 1978: 186) A visão que tenho do discurso amoroso é uma visão essencialmente fragmentada, descontínua, borboleteante. (Barthes, O Grão daVoz, 2004:401)

Aos estilhaços, intertextualidades e vozes, como em Le plaisir du texte, o livro Fragments d’um discours amoureux (1977), de Roland Barthes oferece-se à leitura distraída do amor. O leitor, ao folheá-lo, escolhe múltiplas formas para caminhar entre os aforismos, entre os fragmentos, entre “as rajadas de linguagem, que lhe brotam graças a circunstâncias íntimas, aleatórias” (FDA,1978, p. 12)1. Este livro, é, segundo o próprio autor:
[...] episódios de linguagem que giram na cabeça do sujeito enamorado, apaixonado, e esses episódios se interrompem bruscamente por causa de tal distância, tal ciúme, tal encontro frustrado, tal espera insuportável que ocorrem, e nesse momento essas espécies de pedaços de monólogo são quebrados e se passa a outra figura. Respeitei o descontínuoradical dessa tormenta de linguagem que se desencadeia na cabeça amorosa. É por isso que recortei o conjunto em fragmentos e coloquei estes em ordem alfabética. [...] É, pois, um livro descontínuo que protesta um pouco contra a história de amor (Barthes, 2004, p. 401).

Nessa rede de “dis-cursos” ou citações romanescas, tudo no livro, surge como “algo que se leu, ouviu, experimentou”. (FDA,1978, p. 12). “Pouco importa, no fundo, que a dispersão no texto seja
todas as citações farão alusão a abreviatura FDA - Fragmentos de um Discurso amoroso. Edição portuguesa e tradução de Isabel Gonçalves, Lisboa, Edições 70, 1978.
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rica aqui e pobre ali: há tempos mortos, muitas figuras modificamse; algumas, sendo hipóstases2 de todo o discurso de amor, possuem a própria raridade - a pobreza -das essências: que dizer da Languidez, da Imagem, da Carta de Amor, uma vez que é todo o discurso de amor que está tecido de desejo, de imaginário e de declarações?” (FDA, 1978, p. 12-13). Em entrevista sobre o livro, o entrevistador afirmou: “Não é um trabalho de romancista, é um livro de semiólogo. E um livro de amoroso. Não é um pouco bizarro, um “semiólogo amoroso”?”. E o próprio Barthes, emvirtude desse comentário disse:
Não mesmo! O amoroso é o semiólogo natural, em estado puro! Passa o tempo lendo signos. Não faz outra coisa: signos de felicidade, signos de infelicidade. No rosto do outro, em suas condutas. Ele está verdadeiramente atormentado pelos signos (Barthes, 2004, p. 424)

A legibilidade do amor (e da obra como um todo textual) está, portanto, condicionada à suavinculação a arquétipos literários. O sentido do texto amoroso deriva desse jogo intertextual e se constrói a partir de um duplo movimento: absorção e negação, ou melhor, como quer Julia Kristeva, “o texto poético é produzido no movimento complexo de uma afirmação e de uma negação simultâneas de outro texto” (1974, p. 176). Partindo desse pressuposto e seguindo as reflexões de Laurent Jenny (1979, p. 5),pode-se falar que:
Fora da intertextualidade, a obra literária seria muito simplesmente incompreensível, tal como a palavra duma língua ainda desconhecida. De fato, só se apreende o sentido e a estrutura de uma obra literária se a relacionarmos com os seus arquétipos - por sua vez abstraídos de longas séries de textos, de que constituem, por assim dizer, uma constante [...] face aos modelosarquetípicos, a obra literária entra sempre numa relação de realização, de transformação ou de transgressão.

Nesse sentido, Barthes utiliza os processos de invenção de outros autores, o saber do recorte para a criação de um novo texto,
Hipóstase, do grego hypostasis, significa subsistência, realidade. Na filosofia de Plotino, Deus se deriva em três hipóstases: Uno, nous (Inteligência) e alma,...
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