Avis rara

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Avis rara[1]

LUIZ CARLOS FERREIRA DRUMMOND[2]
BELO HORIZONTE, = 10 DE MARÇO DE 1998

“ENTRE O HOMEM E O AMOR,
há a mulher.
Entre o homem e a mulher,
há um mundo.
Entre o homem e o mundo,
há um muro.”Antoine Tudal, in “Paris no ano 2000” (Citado por Lacan no Discurso de Roma)




“O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do prazer cumprido.
No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo o ascetismo da ioga ... tudo é menor.
O homem sótem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.”


Antonio Maria, in “Crônicas”



1. Prá que isso?



Este não é um tema ou um trabalho que julgue propriamente original. Antes, a importância que ele tem para mim é que se trata, muito especialmente, de um esfôrço associativo, de um esfôrço dearticulação - aqui tomada no sentido articulação de experiência teórica, com minha experiência prática e, porque não dizer, de minha experiência de vida.


De um cliente, recém-casado (pela 2a. vez): “A analista de minha filha perguntou-me se minha mulher faz análise e se não julgo que, não fazendo, haverá uma defasagem muito grande entre nós... Só é possível, só é viável o casamento se as duaspessoas fazem ou fizeram análise? ... Achei estranha esta pergunta...”


De um aluno universitário: “Se dizem que o discurso analítico não faz laço com o social, é que a psicanálise cria uma casta à parte?”


De um adolescente, numa roda de homens e mulheres: “Qual é o contrário de deitado no sofá, de meias, vendo televisão? - Não sabem? É: de pé, na pia, lavando louça!” (Risos.)


Deoutro cliente: “Meu velho (pai) costuma dizer: A mulher tolera o homem porque precisa do casamento; o homem tolera o casamento porque precisa da mulher...”



Há uma categoria curiosa de homens que são aqueles a quem chamamos os místicos.
Como não os consideramos perversos, aquilo de que nos falam não é explicado como pertencendo ao gozo dito fálico. Falam de um gozo queexperimentam e do qual nada sabem. Exatamente como os poetas falam do enigmático gozo da mulher.
Os místicos não falam de mulher; mostram uma “falta-de-porque” do gozo de Deus:


“Deus é tudo para si-mesmo; seu céu, suas delícias. Porque nos criou? Não sabemos...”






Escutem essa opinião:


“Na velha questão sobre a origem da humanidade, eu defendo o meio termo. Umempate entre Darwin e Deus. Aceito a tese darwiniana de que o Homem descende do macaco, mas acho que Deus criou a mulher. E nós somos a conseqüência daquele momento mágico em que o proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva, chegou à planície de Éden e viu a mulher pela primeira vez.
Imagine a cena. O homem-macaco de boca aberta, escondido pela folhagem, olhandoaquela maravilha: uma mulher recém-feita. Como Vênus recém-pintada por Botticelli, com tinta fresca. Eva espreguiçando-se à beira do Tigre. Ou era Eufrates? Enfim. Eva no seu jardim, ainda úmida da criação. Eva esfregando os olhos. Eva examinando o próprio corpo. Eva retorcendo-se para olhar-se atrás e alisando as próprias ancas, satisfeita. Eva olhando-se no rio, ajeitando os longos cabelos, depoissorrindo para a própria imagem. Seus dentes perfeitos faiscando ao sol do Paraíso. E o quase-homem babando no seu galho. E, com muito esforço, formulando um pensamento no seu cérebro primitivo: “Fêmea é isso, não aquela macaca que eu tenho em casa.”
Há controvérsias a respeito, mas os teólogos acreditam que quando Eva foi criada por Deus tinha entre 19 e 23 anos. E ela reinou sozinha no...
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