As filha

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“AS ENCALHADAS” ...filhas de Lampião!
Do livro FOLIAS DE CORDEL de Thiers Camargo Leite Junior, adaptado em peça teatral pelo próprio autor.

Prefácio. (Acordes de ponteio de viola nordestina)

Sim senhor, aconteceu no interior doCeará, acredite se quiser, lá pros fundos da Chapada do Araripe, vale do Cariri, município de Barbálha, onde viveram as protagonistas desse farrancho de Cordel que ora passo a relatar!


Era uma vez três irmãs que herdaram de Mãinha a arte das rendeiras, três talentosas mulheres rendeiras cujo registro de pia deu-se na Igreja do padroeiro Santo Antônio, o casamenteiro, registradas no Cartório dacidade de Barbálha, propriedade do senhor doutor, Jacinto Pinto, e por ordem de nascença seguem-se os nomes das três ditas: Sólinda, morena primogênita, Tôlinda, negra adotiva e a caçula raspa de tacho, Élinda. Filhas da mesma mãe Mãinha cujo pais são todos desiguais. Prole pequena pra uma mulher sangue quente, saco roxo, todavia, fraca em demasia de ventre; Mãinha era ruim de segurar cria,quase nenhuma, somente duas, as acima citadas. Que Mãinha furuncou nesse sertão isso ela furuncou demais. Olha, esse menino, tô pra dizer o seguinte: o que Mãinha engoliu de sertanejo nessa vida, eu não bebi de água.


Deixando Mãinha um pouco de lado com seus mil namorados, vamos nos ater nas três manas que viviam até que bem para a pouca grana que cai nas mãos dos brasileiros. Sólinda, Tôlindae Élinda eram boas rendeiras, vendiam toda a produção de renda de panos correndo as festas e feiras da região.


Sólinda, Tôlinda e Élinda, viram o tempo passar nas batidas das asas da graúna e quando se deram conta estavam, digamos, a beira dos desesperos, mordendo parede, matando cachorro a grito, querendo fazer o mesmo carreto que Mãinha fez com os sertanejos nos desertos canaviais.Nossa folia de cordel se inicia no prezado momento que tomo a liberdade de apresentar num repetente, Sólinda! A primeira das manas, 31 de idade, dita como política, nem tanto por sua vil astúcia suprapartidária, mas pela cara que tinha parecida com a do Clodovil, um tipo assim elegante menstruado. Tôlinda, a preta que virava macha quando a chamavam de loirinha ou de boneca de Olinda dado acabeça grande e altura desproporcional. Tôlinda, 30 anos, criada a base de fubá untado no leite de bode, era na verdade uma baita negraça taluda que quando se arretava de raiva chegava derrubar bem uns quatro valente numa só pernada. Élinda, caçula moreninha, tida como a encapetada, 29 nos costados, que virava um coisa ruim quando os moleque a chamavam de Lampião.


Eis a três manas de naturezaalegre, festiva e completamente virgens. Dizem que quando elas pelejavam, chegavam pra valer junto dos marmanjos nos bailes de forró, xaxado e xote bate coxa. Mas que os parceiros quando sentiam o fogo das três se assanhando para os particulares, fugiam pela janela do banheiro. Dizem que elas, no estertor do desejo, chegavam até oferecer dinheiro; mas que o cabras ofereciam o dobro pra darem o fora.Coisa feia, brinca não. Parece que uma manada de elefantes despencara-se na cabeça das três!

Eis que Chico Embolador, rimeiro e violeiro dos bons que vivia de donativos dos turistas das feiras, pois foi Chico Embolador certo dia de feira ousou brincar com a as três irmãs. Cantou certa rima diante dos presentes:


Lá vêm as rendeiras,
mãos de fada, anjos lampião.
Lá vem trêsmanas,
numa só batida de coração,
lá vêm as encalhadas,
feias que só o cão!





Desta feita as manas não gostaram da troça e responderam com uma arruaça que foi parar na cadeia do soldado Tavico que dizia pras três – Quero só vê cuma é que vam fazê de pescar o nosso Chigo Embolador do alto da cruz da igreja! Chico Embolador se deu mal, entrou nos sopapos das manas que não sabia...
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