As faces da exclusão digital e o esforço da inclusão por roseli ferrari

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  • Publicado : 9 de outubro de 2012
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AS FACES DA EXCLUSÃO DIGITAL E O ESFORÇO DA INCLUSÃO Por Roseli Ferrari

A exclusão digital, pelas características do contexto que envolve, tende a crescer numa especial virtualidade, sob uma muralha digital que deve convencer os olhos menos críticos de que a inclusão está ali mesmo. Esta muralha nada mais é do que a intensa carga de apelo consumista, em arranjos de notável inteligênciamercadológica, que exige como suporte a infraestrutura de informática. Neste sentido, é de se supor que o acesso a esses equipamentos e mesmo às ferramentas amigáveis de conexão com a Internet, sejam franqueados mais e mais a um número cada vez maior de consumidores. Mas, para o filósofo Pierre Lévy, “não basta estar na frente de uma tela, munido de todas as interfaces amigáveis que se possa pensar, parasuperar uma situação de inferioridade. É preciso antes de mais nada estar em condições de participar ativamente dos processos de inteligência coletiva que representam o principal interesse do ciberespaço.”[1] Cabe então, aos interessados no autêntico processo de inclusão, reclassificar os personagens e paisagens desta história. Há que se reconhecer cidadãos, além de consumidores e assim buscar asuperação da oclusão referida por Lévy em seu livro Cibercultura.[2] Ou seja, transpor a muralha digital mercadológica – e também o lixo digital gerado num submundo do ciberespaço, com típicas características de patologia social – até chegar ao espaço da inteligência coletiva gerado a toque de bits.

Esta é, portanto, a necessária diferença a ser estabelecida para referenciar a natureza dasações que possam alcançar autêntica eficiência no esforço da inclusão digital. Porque a exclusão vai estar crescendo ao lado de equipamentos e net-telinhas encantadoras.

A identificação do processo de exclusão digital, para mim, remonta as raízes da inserção, em larga escala, dos computadores no cotidiano da sociedade contemporânea. E justamente o digitador, profissional símbolo deste momento deinserção, marcava o início da trajetória do que se reconhece hoje como excluído digital. Na década de 70, em muito pouco tempo o digitador se constituiu numa categoria profissional numerosa aqui no Brasil. A profissão surgiu de forma atraente, com ares de modernidade, exigindo ambientes climatizados, limpos, bem organizados, tudo atendendo exigências taxativas para o melhor funcionamento das máquinas.Em vários estudos [3] foram relatados diversos distúrbios funcionais do digitador gerados pela forma de subjugação imposta pelos comandos incessantes do computador. Foi também o momento em que se popularizou a L.E.R, a lesão por esforço repetitivo, observada em grande número de digitadores.

Mas os relatos de problemas funcionais gerados pela forma de contato do digitador com o computador iambem além. Foi observado que muitos desses profissionais não conseguiam se concentrar em leituras por causa da prática diária de ler mensagens simplesmente para transmitir às pontas dos dedos os dígitos a serem inseridos na máquina. A rapidez exigida para o processo colocava à parte o raciocínio, tornando a leitura uma forma de mera transferência de dados, ao invés de um método de assimilação de umamensagem. Isso se refletia especialmente na vida dos digitadores que frequentavam a escola depois do trabalho. Esta relação entre trabalhador e seu instrumento de trabalho acabou gerando até momentos de agressividade extrema onde digitadores, tomados por impulsos de irritação, destruíam os computadores, conforme relatos oficiais.

Em minha dissertação de mestrado, desenvolvida no Departamentode Multimeios do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, sob o título “Do gesto mecânico ao pensamento criativo – uma proposta de inserção da computação gráfica no cotidiano do digitador”, eu buscava alcançar uma relação inteligente do digitador com o computador. A liberação da inteligência humana naquela relação era a saída que eu propunha para o fim daquele autêntico conflito...
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