Arte e filosofia

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Arte e filosofia

Nigel Warburton
A questão da arte é a de saber o que é a arte. Esta tem sido importante tanto na estética do século XX como na prática da arte. Por vezes, parece que os artistas tiveram de a confrontar nos seus trabalhos para serem levados a sério pelo mundo da arte. Enquanto escrevo, o artista belga Francis Alys escolheu mandar umpavão vivo para a Bienal de Veneza em vez de comparecer pessoalmente. A actividade do pavão é apresentada como uma obra de arte intitulada O Embaixador. Os galeristas britânicos do artista forneceram um comentário útil sobre o significado desta obra de arte:

A ave irá pavonear-se em todas as exposições e festas como se fosse o próprio artista. É burlesca, insinuando a vaidade do mundo da arte eremetendo para velhas fábulas com animais. (Citado em "Portrait of the Artist as a Young Peacock", The Times, 6 de Junho de 2001, p. 1.)

Presumivelmente, estava alguém por perto para limpar os trabalhos menores deste artista substituto durante a bienal. Talvez estes venham a ser expostos numa futura bienal.

Alys está longe de ser o primeiro artista a apresentar um animal vivo como obra de arte.Uma Verdadeira Obra de Arte, de Mark Wallinger, por exemplo, é um cavalo de corrida e participou em competições. O nome da obra não deve ser entendido metaforicamente. É literalmente uma obra de arte. É um verdadeiro cavalo que participou em competições assim como é, também, uma verdadeira obra de arte. Nomear o cavalo e dar a conhecer a sua existência é um desafio para a maioria das posiçõesaceites acerca do que é a arte. E, num certo sentido, é esse o objectivo — ou pelo menos uma boa parte do objectivo. Na criação de obras de arte como esta — um estilo baptizado por "objectos ansiosos" pelo crítico de arte Harold Rosenberg — os artistas aproximam-se da condição de filósofos. Para eles, os predecessores sugerem uma teoria da arte que refutam elegantemente através de um contra-exemplo bemescolhido. Com o tempo, esses contra-exemplos ficam integrados na corrente e perdem o poder de chocar, tornando-se a seu tempo alvo de uma nova avant-garde. E assim a arte evolui em direcções estranhas e imprevistas.

O exemplo mais bem conhecido deste tipo de inquietantes gestos — que é central na maioria das discussões sobre a questão da arte — é a Fonte, de Marcel Duchamp. É um urinol branco deporcelana toscamente pintado com o pseudónimo "R. Mutt" que Duchamp submeteu à Exposição da Sociedade para Artistas Independentes de Nova Iorque, em 1917. A exposição seria em princípio aberta a todos — os participantes teriam de pagar seis dólares, ganhando assim direito a expor dois trabalhos. Duchamp pagou a inscrição, mas o seu trabalho foi ainda assim rejeitado. O presidente da direcção dasociedade afirmou numa declaração à imprensa que a Fonte, de Duchamp, "não era uma obra de arte, sob qualquer definição" (Citado em Tomkins, Calvin, Duchamp: A Biography, Londres, Chatto & Windus, 1997, p. 182.). A fotografia de Alfred Stieglitz da Fonte apareceu no segundo número de uma revista, The Blind Man, juntamente com uma discussão de "O caso Richard Mutt" que incluía a seguintejustificação, respondendo à acusação de que esta era "uma mera peça de canalização" e não de arte:

É irrelevante que o senhor Mutt tenha ou não feito a fonte com as suas próprias mãos. Mutt ESCOLHEU-A. Pegou num objecto vulgar do dia-a-dia, colocou-o de modo a que o seu significado útil desaparecesse sob o novo título e perspectiva — criou um novo pensamento para esse objecto. (Citado em Tomkins, Calvin,Duchamp: A Biography, Londres, Chatto & Windus, 1997, p. 185.)

Portanto, era uma obra de arte segundo uma definição. Com a Fonte e outros "readymades" — um termo técnico forjado por Duchamp — o artista pôs em causa a confiança sobre o que a arte poderia ou deveria ser. Quer a Fonte tenha ou não começado por uma brincadeira, a posição que Duchamp estabeleceu com dela tornou-se séria com o tempo. A...
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