Arcadismo

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Arcadismo - Sonetos de Bocage

Bocage é um dos mais expressivos poetas noturnos da literatura portuguesa. Em muitos dos seus sonetos, ressoam atmosferas sombrias, antecipando a imaginação ultra-romântica, que recusa a vida normal e medíocre de um cotidiano sem lugar para a aventura, o sonho, o desejo.

Outros sonetos de Bocage caracterizam-se pela mescla de Arcadismo e Romantismo. O poetamuitas vezes oscila entre a convenção - marca do tempo em que vive - e o impulso - necessidade do seu temperamento; entre o bucolismo convencional e a confissão sentimental romântica.

Uma parte frágil da sua lírica está na mistura indiscriminada de elementos árcades e românticos, justapostos sem unidade interna. Outra parte frágil está nos poemas que apresentam ritmos e imagens fáceis, poesiadeclamatória, de circunstância, feita para impressionar os ouvintes, com truques de retórica e eloqüência exagerada: este é um preço pago por Bocage para ser um poeta que saiu dos salões e levou a poesia para as ruas, ajudando, inclusive, a criar um público moderno, urbano, não aristocrático, para a poesia.

Os sonetos mais expressivos de Bocage têm uma forte atmosfera pessoal, de confissãoegocêntrica, de uma dramaticidade subjetiva intensa.

Poesia de ritmos candentes e imaginação, muitas vezes com ressonâncias profundas dos sonetos do poeta Luis de Camões, e muitas vezes ressoando nos dramáticos sonetos de Antero de Quental. Poesia de angústias e desesperos; poesias de confidências com a noite, poemas de amor e medo sombriamente misturados, poemas de horror da morte e da morte como umaespécie de amor.

Analisemos alguns dos sonetos de Bocage:

1. Apenas vi do dia a luz brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado,
Dos irmãos e do pai me pôs distante.Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da Pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

Estrutura interna bipartida: 

1ª parte, constituída pelas quadras e pelo 1º terceto, na qual o sujeito poético nos dá conta do infortúnio com que o Destino o marcou ànascença, ao ponto de lhe ter roubado a mãe, quando ainda era criança, e de o ter afastado da Pátria e do resto da família (pai e irmãos);

2ª parte, constituída pelo último terceto, na qual o sujeito poético, utilizando uma comparação antitética que estabelece com a «insana multidão», confessa apenas suspirar pela paz da sepultura;

Nota: talvez seja de reparar o facto de o sujeito poético não se tercoibido de utilizar o termomorte (devorante), quando referido à mãe (vv 5/6), o que evidencia o quanto, para si, foi dolorosa, ao passo que, no final, porque é uma aspiração sua, e já pacificada, utiliza um eufemismo. 

Aspectos psicológicos:

- caráter sanguíneo (marcado pelos Destinos (vv 3/4)) 

- carente de afetos (vv 5/8) 

- desejoso da morte (v 14) 

Elementos neoclássicos: 

-a forma (soneto)

- o vocabulário alatinado (empório, devorante, vagando, insana) 

- a presença da mitologia (Túbal, Destinos, Marte) 

Elementos românticos:

- o caráter autobiográfico 

- o individualismo 

- o tom confessional 

- a crença no fatalismo de que vítima 

Alguns recursos estilísticos: 

- adjetivação (brilhante, celebrado, sanguíneo, devorante, terna, doce,distante, curva, profundo, insana); 

- metonímia (vv 2, 7); 

- hipérbato (vv 2/4, 11);

- apóstrofe (v 6); 

- anáfora (v 10); 

- anástrofe (vv 1, 8); 

- hipérbole e perífrase (v 11);

- eufemismo (v 14).

2. Já Bocage não sou!... À cova escura

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne...
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