Apologia de socrates

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Platão, Apologia de Sócrates (Lisboa, Guimarães Editores, 1993)


1. Qual a impressão que, cidadãos de Atenas, os meus acusadores vos causaram não sei, mas, quanto a mim, quase cheguei a esquecer-me de mim próprio, tão persuasivos foram os seus argumentos. E, não obstante, é difícil achar no que disseram uma palavra verdadeira. Entre as muitas falsidades que proferiram, uma houve que me deixouperplexo - foi quando afirmaram que devíeis estar de sobreaviso, para não vos deixardes iludir por mim, dado eu ser um formidável orador. Por isso pensei que a maior desfaçatez do seu procedimento foi a falta de pudor de se verem desmentidos pelos factos, quando eu aparecesse perante vós tal como sou, jamais como hábil orador; salvo se eles chamam hábil orador àquele que é verdadeiro, porque,sendo assim, posso admitir também que sou um orador, embora o seja de modo diverso do que eles costumam ser. Repito, o que eles disseram tem pouco ou nada a ver com a verdade. Da minha boca não ouvireis, todavia, senão a verdade. Não decerto, por Zeus, Atenienses, discursos subtilmente enganosos, construídos com palavras e locuções rebuscadas, tal como os discursos dos meus acusadores, mas ouvireiscoisas singelas, ditas com as palavras que me forem ocorrendo. Confio em que o que vou dizer é justo, e ninguém espere de mim outra coisa para além disso. Não seria razoável, ó cidadãos, que me apresentasse perante vós, nesta minha idade, como um jovem a pronunciar discursos. E, no entanto, ó Atenienses, desejo pedir-vos, e instantaneamente vo-lo peço; se, na minha apologia, me ouvirdes as mesmaspalavras que estou habituado a utilizar na ágora, junto ao balcão dos mercadores, onde muitos de vós me tendes escutado, ou em quaisquer outros sítios, não vos surpreendais, nem façais caso. Com efeito, esta é a primeira vez que compareço perante um discatério [tribunal], embora tenha setenta anos de idade, sendo-me, portanto, completamente indiferente o modo de falar aqui seguido. Por isso, talcomo vós, se eu fosse realmente um estranho nesta cidade, me permitirieis que falasse no dialecto e segundo o modo no qual fui educado, vos suplico - e julgo justo o que vos peço - que a vossa atenção não se prenda à forma do meu discurso, pois talvez seja pior, ou talvez seja melhor - e considereis de preferência e atentamente apenas isto: se o que digo é justo ou não, pois nisso consiste a virtudede juiz, enquanto a virtude do orador consiste em falar a verdade.

2. Antes de mais, ó cidadãos de Atenas, é de justiça que responda às falsas acusações que primeiramente me fizeram e, portanto, aos primeiros acusadores, ocupando-me depois das últimas acusações e dos últimos acusadores.

Porque também outrora, já lá vão muitos anos, inúmeros adversários, sem que falassem verdade, selevantaram contra mim, e eu temo-nos ainda mais do que a Ânito e aos seus companheiros, ainda que estes também sejam perigosos. Mais perigosos são os outros, todavia, ó homens, os outros que, tendo-se apoderado de vós desde a infância, vos levaram a acreditar nas suas calúnias a meu respeito, dizendo: «Há aí um tal Sócrates, um sábio, ponderador dos meteoros, pesquisador das coisas subterrâneas e que faztriunfar o argumento mais débil sobre o mais forte». Esses que espalharam tais calúnias, homens de Atenas, são meus perigosos adversários, porque, quem os ouve, depressa se convence de que os homens que se dedicam a semelhantes investigações, não crêem nos deuses. Além disso, estes acusadores são muitos e proferem há muito as suas calúnias, e, o que é mais, falam-vos naquela idade em que, algunsde vós, sendo ainda crianças, ou apenas adolescentes, estáveis mais disponíveis para acreditardes neles, acusando-me de modo contumaz, sem que, em contrapartida, alguém me defendesse.

E o mais estranho é o nem ser possível conhecê-los, nem sequer nomear os seus nomes, excepto o de algum que seja também autor de comédias [Aristófanes]. E aqueles que, movidos pela inveja ou pelo ódio, vos...
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