Antropologia

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  • Publicado : 2 de novembro de 2012
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A cidade vista de dentro (e de fora) de uma bola de gude: esportes, jogos e passatempos na metrópole1 Luiz Henrique de Toledo As noções de ordem, classificação e totalidade emanadas do jogo impuseram-se à minha observação logo no segundo dia da Expedição, ainda pela manhã, quando pisava nas ruas do bairro da Vargem Grande, zona Sul, acompanhado de mais duas viajantes e um morador local, que noslevava para visitar uma rádio evangélica. É nesse cenário que introduzo o jogo da bolinha de gude observado num terreno baldio, situação que entretinha tanto alguns adultos quanto crianças, mas que também pôs em movimento reflexivo o próprio antropólogo. Este consistiu no dado etnográfico central, aparentemente ínfimo, porém denso tal qual um aleph borgeano2, que produziu o mote desse texto em querealidade empírica, contexto de pesquisa e escolha teórica estão intrinsecamente vinculados na produção de algum significado sobre a cidade. O conhecimento das regras do jogo, para além dos aspectos meramente normativos, atua, consciente e inconscientemente, como fundamento, princípio e experiência vivida de uma sociabilidade em ato, pensada como reciprocidade, memória e código de acesso àsdiferenças que se impõem na trama da cidade. A multiplicação e transformação contínua das regras esportivas em passatempos, e vice-versa, desde os institucionalizados aos mais "espontâneos", tal como observamos sobretudo entre as crianças - agentes sociais que mais improvisam e conferem aos objetos grande abstração lúdica - ou mesmo nas conversas informais esparramadas pelos bares populares, revelamparte significativa do ethos urbano, muitas vezes tomado apenas pela ótica da razão prática impressa no domínio da "vida séria". o universo das regras como principio de totalidade: um jogo de gude Mas há, não obstante, uma seriedade inerente aos jogos, esportes ou passatempos, inscrita no âmbito das regras pois, sem as quais, não se multiplicariam e perpetuariam as emoções do jogo. Portanto, não hájogos sem regras, e por mais bizarras e fugazes que possam parecer à observação menos atenta, o universo das prescrições impõe-se ao mundo social corno fundamento e limite das noções de humanidade que sustentam o universo simbólico de qualquer sociedade. Para Johan Huizinga3, por exemplo, os jogos prefiguram a cultura e, tais como quaisquer outros fenômenos sociais, como o domínio da política ou daeconomia, cumprem os desígnios que fundamentam a vida em sociedade. Em outras palavras, colocam os homens em ação e relações recíprocas, de competição, cooperação, contraste, hierarquia. Há algum tempo que, a princípio por curiosidade introspectiva e, posteriormente, necessidade profissional em reaver dados de pesquisa, num esforço que chamaria aqui de exercício autoetnográfico, tento rememoraras formas de alguns jogos e passatempos que pude vivenciar quando criança. Um deles é justamente o jogo de gude, e essa tentativa solitária de reconstituição desse
                                                            
Trecho extraído das páginas 144-146 do texto citado. Em “O Aleph”, Borges expõe este objeto fantástico que, no conto, se parece a uma bola de gude, “uma pequena esferafurta-cor, de quase intolerável fulgor”, mas que pode tomar outras formas (um espelho, um cálice, uma lança) por onde poderíamos vislumbrar todas as coisas do universo sensível. Tratar-se-ia de um artefato observado em inúmeras culturas, daí o seu diálogo com uma problemática cara à Antropologia, a perspectiva comparativa.  3   HUIZINGA. Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 1999. 
2 1 passatempo revelou-se, por muito tempo, frustrada, pois não conseguia recuperar, nem ao menos parte, as regras que prescreviam a dinâmica e a fruição do jogo. A recuperação da memória do jogo não está desvinculada da fenomenologia que o sustenta, expressa a partir do seu entorno sociológico: a lembrança de determinados colegas, as inconveniências das disputas, um ou outro fato inusitado ou detalhe...
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