Anatomia da alma

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JANELA DA ALMA, ESPELHO DO MUNDO

Marilena Chaui

Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? [...] E janela do corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento[...] O admirável necessidade! Quem acreditaria que um espaço tão reduzidoseria capaz de absorver as imagens do universo?[ ...] O espírito do pintor deve fazer-se semelhante a um espelho que adota a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantas coisas tiver diante de si.

Leonardo da Vinci

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Raras vezes despertam atenção as palavras de nosso cotidiano. Ali estão, disponíveis, costumeiras. Falamos emamor à primeira vista, sem que nos preocupe havermos, assim, atribuído poder mágico aos olhos, poder em que acreditamos se falarmos em mau olhado. Aceitamos discordâncias dizendo que cada qual tem direito ao seu ponto de vista ou à sua perspectiva, sem causar-nos estranheza o crermos que a origem das opiniões dependa do lugar de onde vemos as coisas e sem que nos detenha a palavra ' 'perspectiva". Sepretendemos assegurar que algo é efetivamente verdadeiro, dizemos ser evidente e sem sombra de dúvida, porém não indagamos por que teríamos feito a verdade equivalente à visão perfeita — já que não pensamos com os olhos — nem por que teríamos associado dúvida e sombra, associação que transparece quando enfatizamos nossa certeza com um "mas é claro!". Se desejamos expressar agrado e espanto,exclamamos: "é espetacular!", "é fenomenal!". No entanto, não nos demoramos a pensar de onde viriam as palavras espetáculo e fenômeno, nem por que esta última é tão curiosa, pois o cientista, ao falar em fenômenos da natureza, refere-se a regularidades naturais enquanto, no cotidiano, reservamos seu uso para o que é excepcional. Também não nos parece curioso falar em investigação para designar tanto aatividade do cientista quanto a do policial (detetive, em inglês, se diz private eye) e não indagamos se ambos teriam algo

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a ver com um olhar que espia, espreita e espiona. Aliás, não nos surpreende usarmos a expressão "ter (ou não ter) algo a ver'' ao pretendermos afirmar (ou negar) relações entre coisas, pessoas ou fatos. Nem que, laconicamente, declaremos necessária umaconseqüência dizendo: "logo se vê" ou "está-se vendo".
Pouca atenção prestamos à relação que espontaneamente fazemos entre ver e falar quando, acautelando alguém, dizemos: "veja o que diz". Assim como não nos demoramos na relação entre ver e escutar quando, em vez de "escute!", dizemos: "olhe aqui!''. Relações que estabelecemos quando chamamos aos profetas — aqueles que recebem e proferem uma palavra divina— videntes, sem indagarmos por que ouviriam vendo, nem por que mensagens e prodígios sagrados tendem a procurar nossos olhos — de onde vem a palavra milagre? —, nem por que nossa persuasão seria obtida privilegiada-mente pelo ver — não foi essa a exigência de são Tome?
A palavra visionário nos vem imediatamente quando pretendemos designar tanto aquele que conhece o futuro quanto aquele que sonhasonhos impossíveis, tanto aquele que vê mais e melhor do que nós quanto aquele que nada vê. Mas não perguntamos de onde nasce nossa crença de que o tempo por vir seria dado ao olhar e a um olhar mais perspicaz do que o comum (aliás, não costumamos indagar de onde vem essa palavra: perspicaz). E nos parece muito natural que também os tempos idos possam ser vistos: diante da dor e da catástrofe,não aconselhamos alguém ou nós mesmos a "não olhar para trás"? Não cremos apenas que o tempo, futuro ou passado, destina-se à visão. Essa crença reafirma nossa convicção de que é possível ver o invisível, que o visível está povoado de invisíveis a ver e que, vidente, é aquele que enxerga no visível sinais invisíveis aos nossos olhos profanos.
Falamos em visões de mundo para nos referirmos a...
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