Análise do conto a igreja do diabo

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  • Publicado : 11 de agosto de 2012
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Análise da obra

A obra machadiana é permeada de surpresas e fatos curiosos; não só em suas histórias, como nos fatos que a constituem. Com personagens densos e "humanamente verdadeiros", Machado de Assis cria uma narrativa de tensão por ser tão perturbadora, deixando no leitor aquela sensação de asfixia.

Em A Igreja do Diabo, conto dividido em 4 capítulos, o que temos é uma narrativa densae, aparentemente, banal e de simples interpretação. Porém, para o leitor atento e bem munido de exemplos referencialmente citados ao longo do texto, a interpretação não se torna tão objetiva assim. Sobretudo, o mais importante é que se trata de uma grande apólogo constituído por outros menores; daí o seu caráter moralizante. Mas o que dá o toque genial ao conto são as inúmeras referências ao longodo texto. Quando esse fator é atentamente observado percebemos, claramente, os valores da sátira e da paródia constituindo um pilar que serve de base para a criação machadiana, principalmente, nesse texto, onde os elementos carnavalescos são fartamente explorados.

O conto, que integra Histórias sem data, cujos personagens principais são Deus e o Diabo, enfoca de forma cômica a relaçãoDeus/religião, homem/razão. Traz à tona a discussão de como cada pessoa pode exercer a religiosidade sem medo de viver suas incertezas, ou mesmo de duvidar da eficácia da benevolência do homem. Na discussão o Diabo questiona a hipocrisia religiosa e as práticas salvacionistas.

A religião está sujeita à crítica ferina do escritor. Neste conto Machado de Assis criticou todas as formas religiosasexistentes no Brasil, bem como o modo de comercializar a fé através das vendas de conceito religioso. Porque todas as religiões vendem uma mesma ideologia, a salvação. Inclusive, com práticas proibitivas. Na visão de Machado a elite brasileira se afasta das práticas diversificadas de religiões por pura hipocrisia e preconceitos.

A verossimilhança apresentada no conto é paradoxal, porque não revela,antes de tudo, uma grande metáfora. Faz uma brincadeira muito perspicaz com o leitor, usando inúmeros recursos de várias fontes, chegando a ser sufocante. O retrato é cruel e melancólico, mas o resultado é imensamente satisfatório; sentimo-nos devorando Machado de Assis e rindo do par carnavalesco de Deus e do Diabo.

Este conto foi classificado como sendo uma espécie de fábula, marcada pelaironia, mas a rigor, não é, pois além de não constituir uma narrativa curta, os seus protagonistas não são animais irracionais à maneira de La Fontaine que falam de um modo integralmente humano e ainda é permeada por diálogos entre divindades: Deus e seu anjo renegado, o Diabo. Portanto, extrapola até os limites do fabuloso.

A Igreja do Diabo traz uma série de alegorias e símbolos. A literaturamachadiana se baseia muito na simbologia de uma forma geral, mas é nesse conto que esse recurso aparece recorrentemente, assim como o humor trágico e amargo dado o pessimismo com que o autor enxerga a alma humana. Nesse conto, Machado de Assis exercita a sua capacidade de julgamento de atos buscando uma verdade que se mostra cruel na máscara do riso.

O esboço humano que o escritor traz nesse conto,mais uma vez, é o do homem facilmente corruptível e sujeito às influências malignas ou de qualquer espécie. Em A Igreja do Diabo, o escritor tece uma outra "nova teoria sobre a alma humana". Essa teoria se dá por meio de várias alegorias e mitos. O autor mostra essa imagem humana refletida num espelho invertido. O que o Diabo propõe é uma doutrina muito semelhante a de Deus, com a única diferençade que acaba sendo sua mais profunda negação. O Diabo se propõe a negar o que reflete; mostrar o contrário.

Machado de Assis conta a história narrada num velho escrito beneditino do dia em que o diabo resolveu fundar uma igreja, a fim de concorrer com as diversas religiões. Dizia-se cansado de ser desorganizado, de ficar com as circunstanciais sobras das diferentes manifestações de fé....
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