Amor

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  • Publicado : 21 de março de 2013
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Um cão galopa pelas ruas, e atrás dele corre um rapaz. Uma longa corda une os dois e se embaraça nas pernas das pessoas, que ficam passando de um lado a outro, e se irritam e xingam; o rapaz murmura sem parar: “Desculpe, desculpe”, e, em meio às desculpas, grita para o cachorro: “Pare! Stop!”, e uma vez, cúmulo da vergonha, escapa-lhe também um “Porra!”. E o cachorro continua correndo. Ele voa,cruza ruas cheias de tráfego e ultrapassa sinais fechados. Seu pêlo amarelo some da vista do jovem e reaparece entre as pernas dos transeuntes, como sinais de um código. “Mais devagar”, grita o rapaz, e pensa que poderia chamá-lo pelo nome se soubesse qual é, e talvez então o cão parasse de correr, ou ao menos diminuísse a velocidade; mas, no fundo do coração, ele sente que ainda assim o cachorrocontinuaria correndo e, mesmo que a corda aperte seu pescoço até sufocar, ele vai correr desenfreadamente até o local aonde quer chegar, e tomara que cheguemos mesmo, e que ele finalmente me solte. Tudo isso acontece numa época não muito boa. O jovem, Assaf, corre para a frente, mas seus pensamentos ficam para trás, encalhados; ele não quer pensar, precisa se concentrar totalmente na correria docachorro, sente que os pensamentos vão se arrastando atrás dele como uma corrente de latas enferrujadas. A lata da viagem de seus pais, por exemplo. Neste exato momento estão sobrevoando o oceano, pela primeira vez na vida viajam de avião, afinal por que tiveram de viajar tão de repente? E a lata da sua irmã mais velha, em quem ele simplesmente tem medo de pensar, pois dali só saem problemas; e háoutras latas, pequenas e grandes, que ficam batendo umas nas outras dentro de sua cabeça, e, lá no final da corrente, vai se revirando a lata que se arrasta atrás dele já há duas semanas; o som que ela faz o deixa maluco, é um ruído infernal, insistindo que ele tem de se apaixonar loucamente por Dafi, pois, afinal, por quanto tempo é possível adiar? E Assaf sabe que precisa parar um momento,ajeitar um pouco a irritante corrente de latas, mas o cachorro tem outros planos. “Que inferno!”, geme Assaf, pois um momento antes de a porta se abrir e o chamarem para ver o cachorro, ele estava perto, muito perto, do lugar preciso e exato da paixão por ela, Dafi. Chegara a sentir como finalmente atingia seu ponto de recusa no fundo do estômago, a voz calma e suave que lhe sussurrava: ela não é paravocê, essa Dafi, ela só pensa em ferrar os outros, passar por cima de todo mundo, especialmente de você; por que você precisa continuar com essa encenação boba, noite após noite? E então, quando estava quase conseguindo silenciar a voz provocadora, abriu-se a porta da sala onde, na última semana, ficava todo dia das oito às quatro; no vão da porta estava Abram Danoch, magro, moreno e amargurado,vice-diretor do Departamento de Saúde Pública da prefeitura, mais ou menos amigo do seu pai; fora ele quem lhe arranjara trabalho para todo o mês de agosto. Disse-lhe para deixar de ser preguiçoso, e vir imediatamente junto com ele até o canil, pois até que enfim havia trabalho para Assaf. Danoch caminhava depressa, explicando algo sobre um cachorro, e Assaf não prestou atenção; geralmente precisavade alguns segundos para passar de uma situação a outra. Foi se arrastando atrás de Danoch ao longo dos corredores da prefeitura, por entre pessoas que vieram pagar taxas e impostos, ou se queixar de vizinhos que haviam feito construções sem alvará, e desceu atrás dele a escada de emergência em direção ao pátio dos fundos. Tentou sentir dentro de si se já havia conseguido eliminar o último pontode oposição a Dafi, e o que diria à noite a Roy, que exigia que ele deixasse as indecisões de lado e começasse a se comportar como homem. E, mesmo de longe, já conseguia ouvir os latidos agressivos e insolentes, e se assustou, pois geralmente todos os cães latiam juntos, às vezes o coro deles chegava a perturbar seus sonhos no terceiro andar. Agora havia apenas um cachorro latindo. Danoch abriu...
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