Agressão sexual na adolescência

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A Agressão sexuAl nA AdolescêncIA: um destIno dA hIperAtIvIdAde?
Jean Yves Chagnon
Psicólogo clínico; psicanalista; perito judiciário em Bourges, França. “Maître de Conférence” HDR, Laboratório de Psicologia Clínica e Psicopatologia, Instituto de Psicologia, Paris 5 – René Descartes, Paris, França. Tradução: Pedro Henrique Bernardes Rondon

resumo: O artigo apresenta os resultados de umapesquisa sobre

adolescentes autores de atos de agressão sexual, examinados no âmbito de perícias judiciárias. Esses sujeitos tinham sido crianças instáveis, agitadas ou, ainda, hiperativas. Procura-se, então, explicar de que maneira a hiperatividade infantil, dificuldade de tratar mentalmente as excitações pulsionais, constitui fator de risco de agressão sexual na adolescência. A noção denarcisismo fálico permite esclarecer os impasses identificatórios e a dificuldade de compor com a mutualidade dos desejos. palavras-chaves: Adolescência, agressão sexual, clínica e psicopatologia psicanalítica, hiperatividade, narcisismo fálico.
ABstrAct: Sexual assault in adolescence: a fate for hyperactivity?

This paper presents the results of a research about adolescents having perpetrated sexualassault, met in the precinct of judiciary expertise. These subjects had been instable children, agitated or yet hyperactive. The author tries then to explain how infantile hyperactivity, the difficulty to mentally deal with drive excitations, can be a risk factor of sexual assault in adolescence. The notion of phallic narcissism allows illuminating the identificatory deadlocks and the trouble toreconcile with the mutuality of desires. Keywords: Adolescence, sexual assault, psychoanalytical clinic and psychopathology, hyperactivity, phallic narcissism.

Introdução

Já há muitos anos trabalho a partir de uma clínica pericial judiciária, na descrição clínica e psicopatológica dos autores — adultos inicialmente, depois adolescentes — de agressões sexuais (CHAGNON, 2000, 2004, 2005, 2007).Inscrito na corrente psicodinâmica organizada em torno de C. Balier (1988, 1996, 2005) e A. Ciavaldini (1999, 2000), tive a oportunidade, depois de muitos outros, de “libertar” a passagem ao ato sexual violenta de sua dimensão de sintoma de uma estrutura
ágora (Rio de Janeiro) v. XII n. 21 jul/dez 2009 275-290

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perversa considerada “irrecuperável”, para mostrar comoé frequente que tal passagem ao ato adquira o valor de arranjo defensivo ante as angústias narcísicas, depressivas ou mais francamente psicóticas, pertencendo ao vasto quadro dos distúrbios narcísicos-identitários (ROUSSILLON, 1999). Trata-se de uma concepção “econômico-dinâmica” que valoriza a noção de funcionamento psíquico e, em particular, a noção de defesas, mais do que uma concepçãoestrutural congelada, deficitária ou pouco otimista quanto à capacidade de mudança. Na adolescência a questão do diagnóstico e do prognóstico, explicitamente colocada ao perito, se revela crucial, porquanto a passagem ao ato, muitas vezes consubstancial à própria adolescência (MARTY, 2999) não adquire as mesmas significações que no adulto, e pode se estender das variações do normal ao patológico maispreocupante. A questão que se apresenta diz respeito, de saída, ao caráter organizador ou não da conduta comportamental sobre o funcionamento psíquico que, dessa maneira, pode perder suas potencialidades adolescentes de geração de novidades, para se enquistar numa ruptura de desenvolvimento (LAUFER e LAUFER, 1989), principal perigo de toda sintomatologia na adolescência: a psicopatologia grave doadulto pode ser considerada como fracasso dos processos de subjetivação adolescente (CAHN, 1998). Dois fatos clínicos vão apresentar aquilo que proponho. Por um lado, a maioria dos agressores sexuais se lembra, quando bem querem reconhecer isso ou pensar a respeito, de ter cometido seus primeiros atos de delinquência sexual na adolescência ou pouco depois, havendo algumas vezes, mas não sempre, uma...
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