3 Poderes

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 10 (2359 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 7 de março de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
INTRODUÇÃO


A idéia de escrever este livro começou a germinar quando eu ainda escrevia o final de Bate Coração. A percepção da mensagem que nele tento transmitir, no entanto, é algo que, vejo agora, foi se cristalizando lentamente em meu espírito e se refletindo em minhas atitudes, através de vários anos de prática clínica e de observação do comportamento humano.
A formação que recebina Faculdade de Medicina, complementada pela ideologia médica transmitida informalmente no dia-a-dia do convívio com colegas mais velhos e professores, foi tremendamente organicista e cartesiana. Aprendi a raciocinar dentro dos cânones da ciência clássica: vale o que pode ser provado, principalmente o que pode ser medido, dosado, transformado em algum número, quantificado enfim. Ora, é possíveldosar uma enzima, radiografar e medir um coração, isolar um vírus ou uma bactéria, mas não se pode "medir" o grau de tristeza ou de sofrimento de alguém.
Por outro lado, a visão da psiquiatria com a qual a maioria dos estudantes de medicina, eu entre eles, deixam a faculdade, é de um mal disfarçado desprezo. Nos estágios de pronto-socorro, a ideologia informal vigente entre os colegas nos ensinaa não levar a sério as queixas ou doenças não autenticáveis fisicamente. Tendemos a considerar uma perda o tempo que, em um pronto-socorro, com tanta gente em estado grave (assim raciocinamos), dedicamos àqueles que, desdenhosamente, dizemos estar com "peripaque".
O tempo, contudo, foi mostrando, que tanto o que apresenta o "peripaque" quanto o que padece de infarto ou câncer têm algo emcomum: tratam-se de pessoas que sofrem. E não apenas do sofrimento causado pela doença: sofrem, na verdade, de uma mesma dor interior; a diferença resume-se apenas na forma como expressam o sofrimento.
Comecei aos poucos a me interessar pela pessoa de meus pacientes, e não apenas pelos sintomas que relatavam. Passei a querer saber de sua vida, sua família, suas dores e seus amores. E algo, paramim, surgiu límpido e cristalino: eram quase todos sofredores. Quase todos transmitiam desgosto e desânimo pela vida. De uma forma ou de outra, sempre descobria em cada história um traço de desamor. Negado, escondido, camuflado, mas presente.
Ao mesmo tempo em que despertava lentamente para essa nova visão do doente e do adoecer, começou operar-se em mim mesmo uma importante transformaçãopessoal.
É possível que ela já se viesse operando há algum tempo, mas foi por essa época que comecei a percebê-la. Percebi-me cada vez mais liberto dos grilhões da inveja e da vaidade e, cada vez mais, aberto e tolerante para com as pessoas, fossem elas quem fossem. Esforcei-me, a partir daí, para relegar a segundo plano as mesquinhas e insignificantes disputas pelo poder e tentei diminuir, tantoquanto possível, o papel da competição em minha vida. Tudo isso, porém, sem deixar de lutar em defesa do que me parecia de pleno direito e digno de luta.
Passei a perceber o enorme bem que me fazia o bem-querer que demonstrava às outras pessoas e a retribuição que recebia, mesmo sem procurá-la. No trato com meus pacientes, exercitei a tolerância e a boa vontade, reduzindo, tanto quanto conseguia,o mau-humor, a irritação e a prepotência. Cultivei a solidariedade e tentei conviver, sem impaciência, com o comportamento que a regressão, a carência e o sofrimento costumam impor às pessoas doentes.
Estava então com o espírito preparado e aberto para essa nova compreensão do adoecer e de minha vida. Meu espírito treinado na lógica cartesiana, todavia, reclamava a comprovação científica;pedia o embasamento teórico para a realidade que começava a desenhar-se diante de meus olhos: aqueles que traziam dentro de si a capacidade de amar eram pessoas felizes; e estas não adoeciam, ou não adoeciam de doença grave. Foi nessa época que a necessidade de escrever sobre os aspectos psicogênicos das doenças do coração levou-me a tomar contato com um material até então não explorado: a...
tracking img