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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
FACULDADE DE PEDAGOGIA


A DUPLA FACE DE UM MESMO INTELECTUAL

BRAGANÇA
2013

A separação da cultura científica em relação ao conjunto de outras configurações do saber se dá acompanhada pela transformação do antigo sábio em intelectual moderno, como circunstância Edgar Morin em Para Sair do Século XX (1986). O intelectual, tal como concebemos hoje na ciência,descende de uma tradição muito antiga:a dos sacerdotes-magos, encarregados de anunciar a verdade sagrada, produtores e guardiões dos mitos. Foi na ruptura dessa tradição que se constitui o intelectual moderno, este submete toda verdade sagrada e todo mito a prova de crítica racional. (MORIN, 1986. p. 232)
A parti daí, a ciência se conhecerá como conhecimento distinto superior a todos os outrossaberes porque privilegia o que intende por razão, objetividade, verdade e interpretações universais. Assim nasce outro mito: “a razão emancipa o intelectual. Este passa a ser o porta voz da qualidade fundamental e superior do homem-sapiens [...]” (MORIN, op. cit. p. 234)
Essa configuração da ciência favorece e sustenta uma sociedade que naturaliza, justifica ou autoriza a divisão em classes e aexclusão social. Edgar Morin discute a natureza por vezes perversa da consagração dos saberes instituídos, responsáveis pela desigualdade social. Em uma longa nota no livro O Método 4 – na qual expõe os paradoxos do poder e do conhecimento:
[...]o conhecimento é o mais potente produtor de desigualdade, o conhecimento contribui quase sempre com tudo que cria e mantem a desigualdade. Naturalmente,ele não se limita a esse papel e por outro lado contribui para destruir antigas bierarquias, para subverter a ordem estabelecida e desempenha o papel revolucionário [...] (IDEM, 1998. p. 132)
Essa história que se solidifica sob a égide das ciências modernas, não é unitária. Lembra Morin que é justamente no meio das luzes que Jean-Jacques Rousseau descobre a fraqueza da razão e da primazia àvirtude da sensibilidade. Ao lado do conhecimento científico, as populações rurais e tradicionais, ao longo de suas histórias, têm desenvolvido e sistematizado saberes diversões que lhes permitem responder a problemas de ordem material e utilitária tanto quanto têm construído um rico corpus da compreensão simbólica e mítica dos fenômenos do mundo: uma mais próxima da lógica do sensível, outra maisdistante dela.
De modo genérico, quem são os intelectuais? São pessoas que se distinguem pela maneira de observar os fenômenos com mais atenção e por criar métodos específicos para conhecê-los, decifrá-los, explicá-los. Esses criadores e lapidadores de representações recebem dominações distintas das diversas sociedades e tempos históricos: xamãs, pajés, curandeiros, concelho de anciãos, sacerdotes,cientistas. Eles são capazes de tratar informações e transformá-las em conhecimento, podemos intelectuais – estejam eles imersos nas culturas tradicionais ou inseridos nas instituições universitárias se ocupando da edificação da cultura cientifica.
Os dois modos de operação do pensamento – o simbólico/mítico/mágico e o empírico/artifício/racional – estão imbricados, operam mestiçagenshibridações, e isso em qualquer sociedade, da mais letrada a mais arcaica. Sem acesso à cultura cientifica formalizada pela escola os intelectuais da tradição têm, ao longo do tempo, sistematizado conhecimentos que permitem transformar o meio natural. A descoberta constante da multifuncionalidade de cada elemento da natureza, serve de base para sistematização de um saber experimental e, de modo mais alargado,para uma metacompreensão no mundo. Longe das leis insidiosas da uniformidade, da obsessão da ciência em imputar a qualidade de irracional aos conhecimentos não-científicos, da insistência de subsumir tudo que é diverso à linguagem de um equivalente universal, é mais sensato, lógico e racional atribuir à diversidade de estratégia cognitivas a igual diversidades das histórias culturais....
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