Ética- um ensaio sobre a consciência do mal

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 7 (1554 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 14 de fevereiro de 2013
Ler documento completo
Amostra do texto
MANA 2(2):189-211, 1996

RESENHAS

BADIOU, Alain. 1995. Ética. Um Ensaio sobre a Consciência do Mal. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. 100 pp.

Ovídio Abreu Filho
Prof. de Antropologia, UFF

O nazismo e o fracasso das experiências comunistas estão impressos na consciência ética contemporânea. Os horrores totalitários, os perigos ditos inerentes ao desejo revolucionário e a supostainoperância das políticas de transformação assumem, hoje, uma função mítica, inscrevendo no espírito “maneiras de pensar” que fundamentam uma vontade de prescindir da filosofia e de conceder à opinião o direito de articular um consenso ético. Em conformidade com as investigações anteriores de Badiou sobre o Ser, o Acontecimento, a Verdade e o Sujeito, a Ética se constrói em uma espiral que impõe aosproblemas uma mobilidade que os relaciona transversalmente com contextos continuamente ampliados. Assim, se se pode dizer, como o autor o faz, que seu livro tem dois momentos – um crítico, outro criador –, deve-se acrescentar que o movimento dessas atividades na espiral torna-as indissociáveis. É assim que Badiou investiga a natureza da vontade que sustenta a “ideologia ética” contemporânea, ao mesmotempo que propõe uma “ética das verdades”.

Badiou parte da evidência de um dispositivo complexo, composto por organismos internacionais, comissões nacionais, tribunais de ética, expedições militares de defesa de valores etc., sustentando uma rede de discursos que invoca categorias abstratas – o Homem, o Outro, a Vida – e impõe, como imperativos categóricos, o respeito aos “direitos humanos”, oreconhecimento do “Outro” e a defesa de uma “vida digna”. Sob esta tripartição da “ideologia ética”, Badiou revela a recusa niilista de pensar o Bem enquanto prescrição positiva dos possíveis. A primeira figura desse niilismo é o Homem. Trata-se de uma imagem naturalista, biológica mesmo, que reduz o homem a um “animal capaz de reconhecer a si mesmo como vítima” (:25). Postula-se, então, o primado doMal: o Homem, como sujeito universal, possui “a capacidade a priori de distinguir o Mal” (:23), o que ofende os Direitos do Homem, o Outro e a Vida. O nazismo, o genocídio dos judeus, desempenha, no interior da “ideologia ética”, o papel do Mal Absoluto – exemplo de agressão radical às três figuras da tripartição ética. Ao homem-vítima, ao “animal-paraa-morte”, Badiou contrapõe a idéia doImortal, do homem como animal potente, capaz de imortalizar-se na afirmação de “acontecimentos” que o transformam em “sujeito de processos de verdade” – recusa do Sujeito Universal e

190

RESENHAS

sua ética geral vigilante dos direitos da vítima. O homem singulariza-se em sua potência de se subjetivar: Badiou constrói assim o espaço de uma “ética das situações”, que problematiza a relação dohomem com a raridade do “acontecimento”, da “verdade” e do “sujeito”. A segunda figura da recusa niilista é o Outro, e seu correlato é a “ética da diferença”. Badiou mostra como o cuidado da “ideologia ética” com o Outro é uma degradação do esforço realizado por Lévinas em pensar uma ética a partir de uma abertura radical e primeira ao Outro. A “ética da diferença” abandona a exigência de situar oOutro a partir do pensamento do Todo-Outro, da experiência de uma não identidade essencial. Não ultrapassando uma visão mimética do Outro, trocando o fundamento religioso de Todo-Outro por um apoio “científico”, busca sua objetividade no culturalismo. Mas, o fascínio do homem ocidental com a diversidade cultural não impede a constituição de uma identidade ética: “eu respeito as diferenças contantonaturalmente que aquele que difere respeite, exatamente como eu, as ditas diferenças” (:38). Ao fascínio com a alteridade, Badiou contrapõe o problema do Imortal, a questão do reconhecimento do Mesmo. Suas proposições partem dos seguintes axiomas: “não há nenhum Deus”; “o múltiplo ‘sem Um’ – todo múltiplo sendo sempre, por sua vez, múltiplos de múltiplos – é a lei do ser”; “o infinito é a...
tracking img